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Blogue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

Blogue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

"Nas cidades a vida é mais pequena Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu, Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar, E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver". s.d. “O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de (...)
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.                   (Enlacemos as mãos).   Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,                   (Mais longe que os deuses).   Desenlacemos as mãos, (...)
(Leça da Palmeira) Meu querido Sá-Carneiro: Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim. Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão (...)
Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável, Porque para o meu ser adequado à existência das coisas O natural é o agradável só por ser natural. Aceito as dificuldades da vida porque são o destino, Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno— Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita, E encontra uma alegria no facto de aceitar— No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável. Que são para mim as (...)
"Reconhecer a realidade como uma forma da ilusão, e a ilusão como uma forma da realidade. Reconhecer que numa cela ou num deserto está o infinito, e que numa pedra se dorme cosmicamente.(...) Mais vale, sim, mais vale sempre ser a lesma humana que ama e desconhece, a sanguessuga que é repugnante sem o saber. Ignorar como vida! Sentir como esquecimento! (...) um cuspo frio do leme alto" (adaptação livre) 14-5-1930 "Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do (...)
ANIVERSÁRIO No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a (...)
04 Nov, 2019

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.. do Livro do Desassossego «Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco de consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espectáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.   Estas (...)
18 Dez, 2018

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  Tenho tanto sentimento Que é frequente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço, ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada. Qual porém é verdadeira E qual errada, ninguém Nos saberá explicar; E vivemos de maneira Que a vida que a gente tem É a que tem que pensar.   18-9-1933 , (...)
12 Dez, 2018

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"A terra é feita de céu A mentira não tem ninho Nunca ninguém se perdeu Tudo é verdade e caminho"                    
11 Dez, 2018

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  Há no firmamento Um frio luar. Um vento nevoento Vem de ver o mar. Quase maresia A hora interroga, E uma angústia fria Indistinta voga. Não sei o que faça, Não sei o que penso, O frio não passa E o tédio é imenso. Não tenho sentido, Alma ou intenção... Estou no meu olvido... Dorme coração...   Fernando Pessoa, (s/titulo 11.03.1917)  
06 Dez, 2018

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  "Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou, Não é ser um vadio e um pedinte, correntes. É ser isolado na alma. Isso é que é ser vadio. E é no ter que pedir aos dias que passem, e me deixem, Que sou pedinte."   http://arquivopessoa.net/textos/553    
06 Dez, 2018

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  Nos meus desejos existe Longinquamente um país Onde ser feliz consiste Apenas em ser feliz Vive-se como se nasce Sem o querer, nem saber E numa ilusão de viver O Tempo morre e renasce Sem que o sintamos correr Não se sonha, nem se vive É como uma infância sem fim 21.11.1909 (Fernando Pessoa)  
04 Dez, 2018

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  Pus o meu deus no prego. Embrulhei em papel pardo as esperanças e ambições que tive. Hoje sou apenas um suicidio tardio, um desejo tardio que ainda vive. Sonho em dormir a valer, sem dignidade alguma, como um barco abandonado, naufrago entre as trevas e a bruma, de um passado. Sou comandante de navio sem sequer saber nadar.   28.08.1927 (Fernando Pessoa, poema sem titulo, adaptação "semi- livre")