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Blogue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

Blogue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

Sad Steps, de Philip Larkin (Ilneas)

Ilneas

Tristes passos

Tropeçando de volta à cama depois de uma mijadela
Afasto as espessas cortinas e assombro-me
Perante as nuvens que correm, numa lua tão limpa.

Quatro da manhã: os jardins de sombras oblíquas, jazem
Sob um céu cavernoso , rasgado pelo vento.
Há nisto uma faceta absurda,

Na lua a lançar-se através de nuvens fugazes
Soltas como fumo de canhão, para logo se apartar
(A luz pétrea, cá em baixo, subindo os telhados)

Alta e soberba e separada —
Pastilha de amor! Medalhão de arte!
Ó lobos da memória! Imensidades! É certo,

Há um leve arrepio, quando se olha para o Alto.
A dureza e a claridade e o alcance,
A singularidade de tão vasto e fixo olhar

Como a lembrança da força e da dor
De ser jovem; do que não se pode ter de novo,
Mas que é vivido por outros, em pleno, nalgum lugar.

Philip Larkin

 

"Se eles têm três carros, eu posso voar. Se eles rezam muito, eu já estou no céu"

Dizem que sou louco

por pensar assim

Se eu sou muito louco

por eu ser feliz

Mas louco é quem me diz

E não é feliz, não é feliz

Se eles são bonitos, sou Alain Delon

Se eles são famosos, sou Napoleão

Mas louco é quem me diz

que não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor

Não ser o normal

Se eu posso pensar que Deus sou eu e Brrrrr...

Se eles têm três carros, eu posso voar

Se eles rezam muito, eu já estou no céu

Mas louco é quem me diz

Que não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor

Não ser o normal

Se eu posso pensar que Deus sou eu e Brrrrr...

Sim sou muito louco, não vou me curar

Já não sou o único que encontrou a paz

Mas louco é quem me diz

E não é feliz

Eu sou feliz

"Os dois carentes, foi logro aceite quando nos fodemos".

Foi como amor aquilo que fizemos
Sem manhã sujeitos ao presente;
Os dois carentes
Foi logro aceite quando nos fodemos.

Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
O termos juntos
Sexo com ternura
Foi candura
Num clima de aparato e de sigilo

Num clima de aparato e de sigilo
Num clima de aparato e de sigilo.

Se virmos bem
Ninguém foi iludido
De que era a coisa em si - só o placebo
Com algum excesso
Com algum excesso que acelera a líbido.

E eu palavrosa, injusta desconcebo
O zelo de que nada fosse dito
E quanto quis
E quanto quis tocar em estado líquido.

Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
Num clima de aparato e de sigilo
Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
Num clima de aparato e de sigilo
Foi como amor aquilo que fizemos
Os dois carentes
Foi logro aceite quando nos fodemos.

Queixas de um utente (da vida)

Ouvindo :

"Pago os meus impostos, separo o lixo, já não vejo televisão há cinco meses, todos os dias rezo pelo menos duas horas com um livro nos joelhos, nunca falho uma visita à família, utilizo sempre os transportes públicos, raramente me esqueço de deixar água fresca no prato do gato, tento ser correcto com os meus vizinhos e não cuspo na sombra dos outros. Já não me lembro se o médico me disse ser esta receita a indicada para salvar o mundo ou apenas ser feliz. Seja como for, não estou a ver resultado nenhum"

Poema de José Miguel Silva e Adília Lopes. 

Música de "A Naifa". 

 

Lendo :

"Não levantava ondas, não gostava de sobressaltos. Vivia para ter o seu sossego. Trabalhava há vinte anos na seguradora na mesma função. Nunca progrediu, por ser visto como cumpridor e eficaz mas pouco provido de rasgo, que é o mesmo que dizer sem capacidade de puxar o tapete aos colegas, incapaz de engraxar as chefias e sem jeito para se impor entre os demais". (continua) 

De Isabel Paulus, do Blogue Comezinhas

Não há substâncias adictivas, o que há são pessoas com problemas.

1.

A) As bebidas alcoólicas são potencialmente adictivas ?

B) Sim.

A) O seu consumo e produção são legais?

B) Sim. 

A) Quais os efeitos nocivos do alcoolismo?

B) Danos cerebrais, hepáticos, renais, cardíacos, oncológicos...

2.

A) O tabaco é potencialmente adictivo? 

B) Sim.

A) O seu consumo e produção são legais?

B) Sim. 

A) Quais os efeitos nocivos do tabagismo?

B) Danos cerebrais, hepáticos, renais, cardíacos, oncológicos...

3.

 A) A canábis é potencialmente adictiva? 

B) Sim.

A) O seu consumo e produção são legais?

B) Não. 

A) Quais os efeitos nocivos do consumo excessivo de canábis ?

B) Danos cerebrais, hepáticos, renais, cardíacos, oncológicos...

4.

A) Os "açúcares" são potencialmente adictivos?

B) Sim.

A) O seu consumo e produção são legais?

B) Sim. 

A) Quais os efeitos nocivos do consumo excessivo de açúcares?

B) Danos cerebrais, hepáticos, renais, cardíacos, oncológicos...

A) No caso das substâncias legais, porque é que a maioria das pessoas, que as consome, não fica "adicta"? 

B) Porque as substâncias são "potencialmente" adictivas, não são "por si" adictivas. 

A) Portanto depende de quem as consome, certo? 

B) Sim. 

A) Então, posso dizer que não há substâncias adictivas mas, sim, pessoas com maior propensão para criar dependências? 

B) Bom... sim. 

A) Quais as causas que tornam uma pessoa mais propensa, do que outra, para criar essas dependências? 

B) Problemas? 

A) Problemas, onde? 

B) Na tua pergunta. 

 

Gabor Maté

Christopher Isherwood, A Single Man - "I realize that everything is exactly the way it was meant to be"

"A few times in my life I've had moments of absolute clarity. When for a few brief seconds the silence drowns out the noise and I can feel rather than think, and things seem so sharp and the world seems so fresh. It's as though it had all just come into existence.
I can never make these moments last. I cling to them, but like everything, they fade. I have lived my life on these moments. They pull me back to the present, and I realize that everything is exactly the way it was meant to be."
― Christopher Isherwood, A Single Man

 

Num dos meus filmes favoritos, uma das reflexões mais verdadeiras .

Escritura Sangrada.

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"Aquele que escreve em sangue e máximas não quer ser lido, mas compreendido de cor". 

(NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra – Um livro para todos e para ninguém) 

 

"E escrevia ela na sequência das conversas dos amigos, que fatia substancial das mulheres não resiste ao lugar-comum das vagas de dietas e cuidados de saúde. Se a moda é comer saladas, vegetais crus, bacon e ovos cozidos e abolir os hidratos de carbono é porque se segue a dieta de Atkins, mas só até aparecer uma mais badalada, como a paleo ou a do jejum. Pelo nome, têm tudo para dar certo. Escolher a do mediterrâneo, isso não, porque soa a comida da avó gorduchinha. Se a moda é aula de aeróbica, é melhor dançar até aprender o zumba e ficar exaurida de tanto mexe e remexe, passar então ao funk, e acabar na musculação, sendo o importante manter a inscrição no ginásio, sabido que pessoa saudável frequenta o ginásio, estando os restantes mortais destinados a morrer de enfarte, por causa do perímetro abdominal, ou a cair em depressão, consabido o exercício libertar as endorfinas provocadoras do bem estar, tal como o chocolate, mas isso agora não interessa nada porque sempre foi o bicho papão das correntes dietistas até se tornar em aliado nos últimos anos. Se a moda é cuidar dos ossos e evitar a osteoporose, tomam-se suplementos de cálcio até serem desaconselhados por prejudiciais e se voltar ao leite proscrito por acéfalos, por causa da intolerância à lactose. Se estão constipadas é melhor tomar o último grito de anti-constipal porque isso de tomar analgésicos e antipiréticos com nomes iguais há mais de dez anos é coisa de gente antiga. Quando à constipação sucede a gripe, e o anti-gripal não funciona, lá se conformam e tomam o anti-inflamatório, desgostosas de há anos ter a mesma designação, soando a tradicional, sinal de uma de duas coisas: ou é pouco eficaz ou é cancerígeno. 

       Se a moda é o amarelo, ainda que até à semana anterior fosse a cor mais odiada lá em casa, logo se vai comprar o anoraque pintainho. Se o tailleur de cerimónia na montra da loja da marca mais in, se assemelha ao vestido pela princesa das mãozinhas no colo da visita à Islândia, ou pela vip platinada e pirosa que compra o serviço de fotógrafo para poder mostrar o baptizado do neto na Caras,  é forçoso comprá-lo, e não havendo ocasiões propícias ao uso, vá de usá-la no local de trabalho ou em jantar descontraído de amigos. E se a moda são unhas obscenamente compridas, é melhor optar pelo massacre das unhas de gel. Se é moda o cabelo escorrido toca a esticá-lo e comprar todos os produtos e máscaras para o cabelo permanecer escorrido, brilhante e alinhado. Se a moda são as leggings, passam a ser usadas em massa, fiquem bem, mal ou assim-assim.

        Há heresias. A mulher de banho bem tomado, mas de cabelo branco, cara lavada e unhas por pintar é necessariamente uma mulher descuidada e infeliz, que desistiu de si mesma. Sim, no ponto de vista da maioria mulheres, pintar o cabelo, a cara e as unhas significa ser mulher, ser feminina e, sobretudo, não se ter desistido. Isso e a depilação é o considerado grau mínimo de feminidade. E note-se não se tratar da depilação em si, feita por todas, mas o de parecer ter-se vindo ao mundo sem pêlo, além do cabelo e sobrancelhas, tal é o embaraço em assumi-lo, salvo às amiguinhas e às esteticistas ucranianas e brasileiras. Depois há a fãs e mais arrebiques na cara, no corpo, nos trajes e nos adereços, considerando-os cuidados indispensáveis numa mulher. Ser feminina é dar a imagem de feminina. Cuidar-se. E cuidar é engalanar, qualquer coisa a remeter para o mundo animal e os rituais de acasalamento. À semelhança do reino animal a exibição é uma das muitas formas conhecidas de seduzir o sexo oposto, como a luta ou o carinho, mas a busca do vistoso pelas mulheres tem a nuance de ir muito além do querer agradar ao bem-amado. É a vontade de agradar a todos, especialmente, de agradar às outras mulheres. Na maioria das vezes sem consciência raparigas e mulheres guerreiam entre si, nas escolas, entre amigas, no local de trabalho, por lugar de destaque. Concorrem para obtê-lo, e ao contrário do expectável entre seres humanos do século XXI, fazem-no mais através da imagem do que pela inteligência. Mulheres e homens acreditam ter mais sucesso, se aderirem comportamentos e tiques de moda. Sendo mais atraentes, segundo o padrão dominante a cada momento. Medem-se a si e aos outros em função da imagem, longe de imaginarem que o traje de dança mais sensual, é o da inteligência e da sensibilidade.

       Parte substancial dos homens também foi engolido na voragem do aparente. Desnorteados tentam agradar às mulheres que se emanciparam de forma aparente. Nos casos felizes transformam-se em casais modelo, muito alinhados, iguais aos dos anúncios a margarinas magras com sabor a manteiga, ele de ar blasé, de camisa azul clara aberta, calças de sarja bege e sapatilhas adidas, ela de blusinha de viscose, saiinha a condizer e sapatinho de bailarina, ambos a sorrir muito para irradiar aquela felicidade pessoal e profissional que se reconhece ter sido alcançada com a prática da outrora auto-ajuda, hoje coaching.

       Também eles se cuidam. Não sendo cuidar sinal de tomar conta do corpo e saúde, mas antes padronizar o corpo, tentar se aproxime ao máximo do estereótipo tido como perfeito, ainda que isso pouco tenha a ver com o razoável ou essencial de cada um. E tornar verdade incontestada ser corpo saudável o corpo magro, conquistado a pouco mais do que água, alface e fitness. E se todas estas considerações ouvissem as e os adeptos do chamado estilo de vida saudável, teríamos de ouvir sermão e missa cantada. Porque é blasfémia, porque deturpamos tudo e só estamos a demonstrar a nossa ignorância e apego aos mitos antigos. Porque nem em caricatura é assim. E tudo tem equilíbrio. Não se pense serem desajustados os termos religiosos. Trata-se de seita de muitos e muitas beatas prontos a catequizarem todos os hereges que não resistem a cometer os pecados capitais da gula e da preguiça. Todos os dias os vemos na televisão, sentados nos sofás dos programas de entretenimento ou mesmo em programas de informação, elas a gesticular contidamente, as mãos presas em finíssimos braços, e as perninhas juntas em ângulo de vinte graus a trazer à memória os namoros de sofá de meados do século passado sob o olhar atento dos pais ou as antigas catequistas das nossas Igrejas. Eles quase sempre de fatinho escuro, a recordar os Mórmons e o discurso hipnotizador semelhante ao empregado na ciência desconhecida que não se deve negar à partida, a astrologia. Imagens e discursos, que extravasam a televisão e perpassam todas a redes sociais. Cansa a quem olha de fora que não se perceba tudo ter equilíbrio, mas com dois pesos a contrabalançar e não uma voz única, cada vez mais única e poderosa, viciada em interesses económicos na área da alimentação, do desporto, do vestuário e da saúde. A indústria da imagem vendida a milhões de seguidores da suposta vida saudável.

       E existe a heresia máxima, a de ser dotado de corpo volumoso ou curvilíneo.  É tido como deficiência física, decorrente de excessos alimentares e falta de exercício físico ou doença grave. E tratado com o asco que as pessoas desprovidas de inteligência demostram face às deficiências. Naturalmente alvo de anedotas fáceis a versar mancos, manetas, surdos, cegos ou gordos. Após séculos de evolução a humanidade começa a entender que o cego, o manco, o maneta, ou o surdo não são maldição divina caída sobre o próprio ou a família. Também será preciso tempo para deixar de ver o gordo como o amaldiçoado. E seria bom rir tão só da diferença de cada um, nem menos, nem mais irrepreensível, recusando modelos únicos. Rir da despedida até mais ver do cego, do âh do surdo, do tropeço do manco, do danoninho fora do alcance do maneta, e do aniversário a 4, 5 e 6 de Abril do gordo, sem perder de vista que a caricatura é isso mesmo e não castigo a proscrever alguns do paraíso da dita normalidade destinado aos puros. Neste paraíso criado artificialmente pelo preconceito, só os magros de membros e sentidos apurados são dignos de ter sucesso profissional, apesar de poderem ser incompetentes, só eles são dignos de se sentarem à mesa, ainda que gesticulem o talher no ar, só eles podem praticar bom sexo, apesar de poderem temer a dimensão e expressão do próprio corpo, só eles podem durar até aos cem anos, apesar de poderem morrer aos vinte. De fora, gordos e deficientes. Apesar de poderem ser bons profissionais ou de saberem apreciar uma refeição, não encaixam bem no perfil ideal de secretária ou mesa bem-posta. Causam estranheza a muitos imaginários eróticos, porque apesar de poderem ser magníficos amantes,  não renunciam à dimensão carnal ou diferença, que assusta cada vez mais adeptos do sexo artificial, praticado segundo guião ou por telepatia, de quem começa por confundir desejo e humanidade com perversão e acaba por pugnar pela ausência de corpo, esse pedaço de culpa, que a modernidade há-de querer esconder". 

 

Excerto de um texto de Isabel Paulos, do blogue Comezinhas.  

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