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Blogue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

Blogue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

Pré desafio de escrita dos pássaros. A vida foi PAISAGEM.

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Deito-me, à manhã, atrasado. Debruço-me ao espelho do fundo da rua e inquieto-me em indecência risonha. Meço o dia num estremecimento de sombra. Vogando à toa, velo por mim, e vejo, da ré, a vida de dó. "Viver é esquecer" lembro-me. A luz, mortiça, fia-me, em cotão, memórias de ocaso. Poucas, minhas, muitas outras, alugadas. Tanto faz. O que vivi, vivi, umas vezes só, outras sozinho, sentado, desbaratando-me num sem crer. Tudo passou, em eterna repetição. Pus-me no jeito que a vida me deu. Um meio debruçado-fodido de belo efeito. Troco-me, ao passar de página, e nos pés, leio uma sina de asco. És tu, isto? À cabeceira poiso, em náusea, uns dentes baratos. Na boca, ninguém. A solidão, estoirou-me, na certa, o miolo. Enrolo-me no quarto, como nascente, apartado de tudo, apertado num quase nada, Total, à espera do tiro acidental, fatal. O corpo estremece mole, sem tesão, ou tensão. Sangro absolutamente morto, sonhando estar no nascer de novo, a fuga....coisas novas e sérias, teria. E eu, por elas, um outro coiso seria. Com sorte, talvez, um gelado lambido, uma côdea mordida, tanto faria. Queria apenas ser capaz desse amor espiado em outros...mas não resta nada, nem nesse copo jogado, agora, à sorte, para uma certeza de perto. Estou falido, gastado. Em tudo o que é novo vejo, somente, quinquilharia caiada. "Pára miolo, deixa-me marinar no marimbando". Sendo, ergo-me, a custo de pulso, só, até à retrete e Acho Que A Coisa Não Vai Correr Bem... mas se ela passar que me embarque, do largo, até ao muito longe. Pudesse eu ter, quem não fui. A vida foi PAISAGEM. 

Aforismos

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1.We, humans, in opposition to others mammals, can create, through culture, through ideas, different worlds from the natural one. Sometimes what is shouldn't be. Because of that, We Are God's, Creators of "Worlds". 

2.I don't like common sense. I like the crazy sense, that say that the sense of the majority is delusional. 

3.I understand that sometimes we have to make a stance. But when that stance becomes constant I think that hides an inside type of inner self repression. Because of that, I understand that a christian will talk frequently about porn and sex because is one of the biblical main themes. 

4. I think only a disable person can do ordinary jobs.

Vorph Valknut 

O paradoxo de todo o conhecimento adquirido é transformar o objecto conhecido num outro, novo e desconhecido.

O Homem criou a Dor quando ao sofrimento sem razão lhe deu compreensão.  

 

Deus

Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.

Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.


3-6-1913
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 23.

Perdemos o controlo das nossas vidas de duas formas: 1)Pelo medo de uma dor iminente. 2)Pela promessa de um amor ausente.

Whatsoever I've feared has come to life

Whatsoever I've fought off became my life

Just when everyday seemed to greet me with a smile

Sunspots have faded and now I'm doing time

Now I'm doing time

'Cause I fell on black days

I fell on black days

Whomsoever I've cured, I've sickened now

And whomsoever I've cradled, I've put you down

I'm a search light soul they say

But I can't see it in the night

I'm only faking when I get it right

When I get it right

'Cause I fell on black days

I fell on black days

How would I know

That this could be my fate?

How would I know

That this could be my fate? Yeah

Uh, uh, uh

So what you wanted to see good

Has made you blind

And what you wanted to be yours

Has made it mine

Don't you lock up something

That you wanted to see fly

Hands are for shaking

No, not tying, no, not tying

I sure don't mind a change

I sure don't mind a change

Yeah, I sure don't mind, sure don't mind a change

I sure don't mind a change

'Cause I fell on black days

I fell on black days

How would I know

That this could be my fate?

How would I know

That this could be my fate?

How would I know

That this could be my fate?

How would I know

That this could be my fate?

I sure don't mind a change

"A esperança tem de ser colhida na devida hora"

 

«A esperança tem de ser colhida na devida hora.»

Miguel Torga, Vindima (1945), p. 64

 

(Quanto mais cedo, melhor).

A esperança é como aqueles vinhos comprados, ou oferecidos, que de tão bons ficam guardados à espera de adequada e solene ocasião. Tardando, acabam esquecidos, estragados, não bebidos. Assim é, na prática, a esperança.

Aos 16 anos, senti...

 

...o que jamais esquecerei, tendo dado a volta, pelo adeus, ao bom dia ("Those days run away like horses over the hill"). Porém, sinto-lhes a falta, dos dias de labirinto. Do, ao provar-me finito, saber a infinito. Foram dias de segredos, de iniciações, de mudanças de pele. Foram Anos de Serpente.

Agradeço, ao Júlio, pela, "gostosa", recordação. Zooropa foi, talvez, um dos meus três, quatro, "LP´s" de Formação.

 

Dirty Day

"I don't know you
And you don't know the half of it
I had a starring role
I was the bad guy who walked out
They said be careful where you aim
'Cause where you aim you just might hit
You can hold onto something so tight
You've already lost it
Dragging me down
That's not the way it used to be
You can't even remember
What I'm trying to forget
It was a dirty day
Dirty day
You're looking for explanations
I don't even understand
If you need someone to blame
Throw a rock in the air
You'll hit someone guilty
From father to son
In one life has begun
A work that's never done
Father to son
Get it right
There's no blood thicker than ink
Hear what I say
Nothing's as simple as you think
Wake up
Some things you can't get around
I'm in you
More so when they put me in the ground
These days, days, days run away like horses over the hill"

 

Que a Força esteja com Rui Rio.

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Fui ouvir Rui Rio. Do discurso pouco retive porque, redondo, lato, carente de vinco, ou rasgo. Normal, portanto. Falava-se para as "bases", tendo em vista o próximo Congresso do Partido. No final, tomado de balanço, cumprimentei-o, por infelicidade, minha, sem o convencional aperto de mão, pois que a tenho quebrada (fractura do colo do 5°metacarpo). Sem lhe saber a força da mão, soube-o, pelo gentil olhar, pelo sorriso, franco, estar perante um homem bom. Na breve conversa, confidenciei, ter nele votado, e não no PSD, e que alguns dos reluzentes "primeiras filas", de "cadeiras reservadas", teriam prestado um grande favor, a ele, Rui Rio, e um honroso serviço ao Partido, se se tivessem abstido de pousar, ao seu lado, aquando das, "sempre", embaraçosas sessões fotográficas. 

"Agora há um pedido de donativos solidários para lhe pagar o enterro, e não escapa a muitos de nós que melhor teria sido tal ser feito em vida. Não o funeral, mas o donativo solidário, para viver. Para não ser enterrado em vida"

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Divertem-nos das nossas variações douradas de monotonia, no intervalo entre um prato de sopa e a hora do deitar. Depois morrem-nos, valados entre as bugigangas diárias da vida séria. Tornámo-nos, no entretanto, grandes artistas, capazes de bufar, em hexâmetros, as nossas pueris ficções diárias. Quanta tristeza há quando para suportar a realidade já nem a ficção nos vale.

Que descanse em paz.    

 

JOSÉ LOPES (1958-2019)
"A brincadeira com a banana e a fita adesiva trouxe-me à memória a Eugénia, que já cá não está e fazia entrevistas absurdas no Chiado, nos anos 80 (os anos que mais pediam absurdo na rua porque era possível e porque a realidade ainda não era absurda, roubando trabalho honesto aos artistas honestos). E agora vem a notícia de que o Zé Lopes também já foi, encontrado no tugúrio onde morava por um amigo um par de dias depois de morrer. Agora há um pedido de donativos solidários para lhe pagar o enterro, e não escapa a muitos de nós que melhor teria sido tal ser feito em vida. Não o funeral, mas o donativo solidário, para viver. Para não ser enterrado em vida, precisamente.
O Zé Lopes foi o primeiro grande actor que conheci, ainda no teatro da escola, Os Arletes, em 1975, orientados pelo professor Limpinho, de Filosofia, que ainda cá anda (parece) mas está difícil de localizar por quem para com ele tem (e somos muitos) uma dívida de gratidão.
Nós éramos aprendizes de, o Zé Lopes era já actor autêntico. E actor se tornou.
O que têm os actores que os torna tão frágeis, vulneráveis à chuva ácida? Ao contrário dos espertos como eu que nos habituámos a só sair à rua de gabardina com protecção anti-bala?
O teatro nunca foi o nosso forte em escrita (pouca, poucachinha ao longo de oito séculos brilhantes para a poesia e a prosa, artes mais solitárias, logo mais adequadas ao clima português) mas foi vibrante em palco, mesmo quando o público voava noutras direcções. O teatro exige um público, uma sociedade que saiba dialogar, onde até o mais fraco tenha afiada língua contra poderoso senhorito, e nós sempre fomos mais de calar que de falar. «O silêncio é de ouro, o diálogo mata», poderia ser um lema.
O Zé Lopes foi. Já cá não está. A última vez que o vi não tive a certeza de que era ele e, quando o pude ir procurar, tinha desaparecido.
Agora desapareceu. Fica a memória, o algum remorso, a voz e a presença claras, de quando era um actor feliz. Se justiça houver, estará neste momento a receber aplausos, o melhor prémio para um actor. De dinheiro (o segundo melhor prémio para um actor) já não precisa. Apenas nós, para o seu funeral".

De Rui Zynk.

 

A normalização da anormalidade resume-se ao sacrifício idiota de um néscio em nome de uma comunidade cretina

 

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Curamos adictos, toxicodependentes, trocando drogas ilegais por outras, socialmente aceites, e por isso legais. Aceitamos adicções, obsessões e, portanto, patologias mentais, se estas forem benéficas para a comunidade. A normalização da anormalidade resume-se ao sacrifício idiota de um néscio em nome de uma comunidade cretina.

 

"It is impossible to understand addiction without asking what relief the addict finds, or hopes to find, in the drug or the addictive behaviour.”
― Gabor Mate, In the Realm of Hungry Ghosts: Close Encounters with Addiction

 

http://thezeitgeistmovement.se/files/In_the_Realm_of_Hungry_Ghosts_-_Gabor_Mate__M.D_.pdf

 

 

Não há substâncias adictivas, o que há são pessoas com problemas.

1.

A) As bebidas alcoólicas são potencialmente adictivas ?

B) Sim.

A) O seu consumo e produção são legais?

B) Sim. 

A) Quais os efeitos nocivos do alcoolismo?

B) Danos cerebrais, hepáticos, renais, cardíacos, oncológicos...

2.

A) O tabaco é potencialmente adictivo? 

B) Sim.

A) O seu consumo e produção são legais?

B) Sim. 

A) Quais os efeitos nocivos do tabagismo?

B) Danos cerebrais, hepáticos, renais, cardíacos, oncológicos...

3.

 A) A canábis é potencialmente adictiva? 

B) Sim.

A) O seu consumo e produção são legais?

B) Não. 

A) Quais os efeitos nocivos do consumo excessivo de canábis ?

B) Danos cerebrais, hepáticos, renais, cardíacos, oncológicos...

4.

A) Os "açúcares" são potencialmente adictivos?

B) Sim.

A) O seu consumo e produção são legais?

B) Sim. 

A) Quais os efeitos nocivos do consumo excessivo de açúcares?

B) Danos cerebrais, hepáticos, renais, cardíacos, oncológicos...

A) No caso das substâncias legais, porque é que a maioria das pessoas, que as consome, não fica "adicta"? 

B) Porque as substâncias são "potencialmente" adictivas, não são "por si" adictivas. 

A) Portanto depende de quem as consome, certo? 

B) Sim. 

A) Então, posso dizer que não há substâncias adictivas mas, sim, pessoas com maior propensão para criar dependências? 

B) Bom... sim. 

A) Quais as causas que tornam uma pessoa mais propensa, do que outra, para criar essas dependências? 

B) Problemas? 

A) Problemas, onde? 

B) Na tua pergunta. 

 

Gabor Maté

No fundo, o destino pouco importa: "Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer"

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(Leça da Palmeira)

Meu querido Sá-Carneiro:

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.

Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.

No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.

Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.

Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.

Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.

As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.

Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.

De que cor será sentir?

Milhares de abraços do seu, sempre muito seu

Fernando Pessoa

 

P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características...

Você acha-me razão, não é verdade?

14-3-1916

Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introduções, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1986. - 123.

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