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Blogue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

Blogue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

 

Poema, A Noite, de José Mário Branco. 

Em tudo o que já fomos está o que seremos. 
No fundo desta noite tocam-se os extremos, 
E se soubermos ver nos sonhos o processo,
Os passos para trás não são um retrocesso. 
A noite é um sinal de tudo quanto fomos. 
Dos medos, dos mistérios, das fadas e dos gnomos, 
Da ignorância pura e da ciência irmã, 
Em que, sendo passado, já somos amanhã. 
A noite é o espaço vago, o tempo sem história, 
Em que as perguntas nascem dentro da memória. 
Em tudo o que já fomos está o que seremos. 
Mas cabe perguntar : foi isto que quisémos ?
Em tudo o que já fomos está o que deixamos.
No fundo das marés, nos portos que tocamos.
O rumo desvendado, o preço da bagagem,
É tudo quanto resta para seguir viagem.
A noite é parideira da contradição,
Que existe em cada sim que nos parece não.
Olhando para nós, os grandes dissidentes,
No meio da luta, entre lemes e correntes,
Será esta viagem feita pelo vento,
Será feita por nós, em amor e pensamento?
O sonho é sempre sonho se nos enganamos,
Mas cabe perguntar : como é que aqui chegámos ?

Em tudo o que já fomos estão os nossos mortos.
E os vivos que ficaram entram nos seus corpos
Na noite do amor, na noite do sinal,
Naufrágio de fantasmas na pia baptismal.
A noite é o impreciso e escuro purgatório,
Que alinha as nossas almas no seu dormitório.
A culpa dos heróis é serem sempre poucos.
Acaso somos mais, ou tão somente loucos?
Temos que descasar a culpa e o prazer,
No que fizemos ou deixamos de fazer,
Para reconstruir os corações cativos.
Mas cabe perguntar : acaso estamos vivos ?
Em tudo o que já fomos há um sonho antigo,
Conversa universal de cada um consigo.
São sombras e brinquedos, tudo misturado,
E o vago sentimento de nascer culpado.
Será um sonho absurdo, este olhar p'ra dentro,
E o nosso destino, só, servir de exemplo?
Andamos a fugir à frente desta vida,
Mas cabe perguntar : existe uma saída?"

 

Post Scriptum,

Tenham medo, muito medo! É Poeta, o Maior do mal-dito que, de pé, há de esperar à esquerda dum deus de Dós menores.

"Música de Intervenção", mais o camandro, dizem-me ser a dele. Eu disso" no comprendo nada", mas desconfio que é por, a dele, dar corda ao pensamento.