É preciso termos tolerância para a tolerância de ponto dos funcionários públicos.
Vorph "ги́ря" Valknut

Obrigatório ler :
O céu é de todos e este mundo de quem mais apanha.
Raúl Brandão, in " A Farsa"
Começo pelas tolerâncias de ponto, esse tópico que sempre foi uma regalia para uns e uma miragem para outros. Pergunto-me se faz sentido aplicar essa mesma tolerância neste momento, sobretudo quando muitos funcionários públicos estão em regime de home-office (estranho que finalmente agora se utilize a expressão tele-trabalho), sem o layoff e com emprego garantido. "Entendo" que uma das preocupações dos partidos à esquerda seja já o congelamento dos salários destes funcionários, mas não é motivo para tolerâncias, sobretudo para permitirem que nas datas em que não se pode circular entre concelhos, muitos destes funcionários se possam antecipar e assim dar a volta às próprias emanações do Executivo. E dois dias? Além de ser uma falta de respeito para os demais funcionários públicos que ficarão a trabalhar é também um desrespeito aos demais portugueses que perderam o emprego, que perderão o emprego e que, quer queiramos quer não, com tudo o que isso possa ter de bom e de mau, continuem a suportar a máquina pública - que em muitas áreas também devolve o investimento.
É fácil ouvir os arautos da política, de uma certa dependência pública e até de uma certa onda da comunicação social (e até desportiva e cultural) opinarem e darem conselhos, partilharem os seus exemplos... Sobretudo porque não sofreram as restrições que muitos estarão a sofrer. O "fique em casa" é muito interessante quando o meu ordenado não sofre alterações e o meu trabalho não depende dos resultados nem da produção da minha organização... Mas alargar uma tolerância de ponto a este extremo, só mesmo ao nível da legislação que protege os funcionários públicos do despedimento (mesmo quando praticam crimes) e até estabelece um salário mínimo acima dos demais mortais...
A união dos portugueses não se faz assim, e senhor Presidente e senhor Primeiro-Ministro, cuidado com a mola...
Texto da autoria de Robinson Kanes.