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B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

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Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

21.02.20

desafio de escrita dos pássaros #2.4 - Quando é que a Amália vai morrer?


Vorph "ги́ря" Valknut

Lembro-me de há uns anos, largos, estar no escritório, lá de casa, ao computador. Era um aparelho enorme, como todos os computadores daquela altura, da marca A-miga. Pergunto-me se será esta a forma correcta de a escrever. Consulto o Google e afinal é Amiga, sem hífen. O Google é um espetáaaaaculo!!, como diz o "Gordo", trazendo, num instante, quase todo o passado para o presente. Adiante. Recordo-me, como dizia, de estar ao computador-mastodonte. A Internet teria chegado há relativamente pouco tempo a Portugal ou então, apenas, à minha casa. Tenho, disso, a certeza quase absoluta. Recorro, uma vez mais, ao Google e confirmo. Foi na década de 90. Parece-me certa a data para estas minhas memórias a sépia. Teria acabado de estudar para uns exames ou, talvez, tivesse acabado um joguito, tipo "After Burner", ou fartado de ver mamas. Sei lá, passou tanto tempo! Tinha decidido, naquela tarde, nem sei porquê, explicar à minha avó o que era a Internet." Lhó, anda cá acima, por favor, que quero mostrar-te uma coisa" "O quê?" "A Internet!" "Tá bem, subo já..."

Nunca chamei avó, à minha avó. Chamava-lhe "lhó". Enviuvara há uma catrefada de anos (o meu avô, militar e ex-Legionário, morrera nos anos 80, teria eu 11 anos, mais coisa, menos coisa), reformada há outros tantos. Trabalhara nos "Correios". Fora telefonista, tendo sido mandada p'ra "reforma" antecipada quando chegaram umas "máquinas modernas" chamadas Centralinas. Atenção que o "desemprego", aos cinquenta e picos anos, não foi castigo, mas bênção. Associada à pensão de viuvez, deu-lhe a liberdade de tomar fora, todo o santo dia, o pequeno almoço, o almoço, o "pós almoço", e ainda o lanche, mais o "pós-lanche". Umas torradinhas, chá, umas amigas, e na vida não sobrava muito mais. A minha avó nunca se deu bem com isso do "trabalhinho". Uma canseira, e ela estava certa. Adorava ver, ouvir, a Amália, o Marco Paulo, a canção "Ó Tempo Volta para Trás", a nossa senhora de Fátima e de beber água morna de um termo, para proteger a garganta. Tinha gosto que lhe pedissem, uma vez, por outra, para cantar o Fado. Não desafinava, nem trinava. Tinha certo jeito, corria na família, e daí lhe vinha o apelido, Cantiga (segundo reza a lenda teria havido uma bisavó/tetra/penta, enfim, alguém com jeito para as modas. Tal como na Alemanha, há os Schuster, na Inglaterra, os Smith, em Portugal temos os Cantiga). Nos últimos anos andava com a mania de usar, lá por casa, um chapéu, por causa das luzes do tecto que, quando acesas, dizia ferirem-lhe a vista. Quem sabe se por essa altura o coração não andaria já descompassado mas, para ela, antes a arritmia, que mais tarde a levaria, do que qualquer medicação. Viria a morrer muitos anos depois, em casa, sozinha. Da maneira "mais errada". Divago, lembrando-me, enquanto escrevo. Dizia eu, a minha avó subiu as escadas, entrando no escritório e ao olhar-me, disse-lhe:  "tás a ver isto? É um computador. Já ouviste falar na Internet?" "Sim". "Sabes o que faz?" "Não". "Olha, uma pessoa escreve aqui, qualquer coisa, e a Internet dá-te as respostas. Queres ver... sei lá, capital da....da Arménia...Erevan (não sei se tomei, nessa tarde, a Arménia como exemplo para alguma coisa). "Sabes onde fica a Arménia? Sabes que a Arménia é um país? Olha, fica aqui! Vês, nunca falha. Tu dizes, eu escrevo, ele mostra. Lhó, vá lá, diz-me, uma coisa, qualquer, que queiras saber!" Ela sorriu, ou a memória prega-mo e vejo-a sorrindo, como era seu hábito. Era de riso fácil porque com pouco se ralava, e pouco sabia, e com menos se governava, e talvez estas coisas andem todas ligadas. Vem-me, neste instante, à memória:

"Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!"

(Regressado). A minha avó, por fim, pediu-me: -  Olha, escreve aí "Quando é que a Amália vai morrer?" Virando-me, ri-me a bandeiras despregadas. Respondi-lhe que a Internet não tinha respostas para coisas não sucedidas. Que para adivinhações tinha a vizinha do 2º andar. Talvez, neste momento, invente, também, e não houvesse vizinha nenhuma. Mas, em tudo isto há já muita imprecisão, pedindo-vos algum desconto. É que, tal como no que conta, o Google está errado mais vezes do que a conta. 

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