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B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

10.12.19

"Agora há um pedido de donativos solidários para lhe pagar o enterro, e não escapa a muitos de nós que melhor teria sido tal ser feito em vida. Não o funeral, mas o donativo solidário, para viver. Para não ser enterrado em vida"


Vorph "ги́ря" Valknut

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Divertem-nos das nossas variações douradas de monotonia, no intervalo entre um prato de sopa e a hora do deitar. Depois morrem-nos, valados entre as bugigangas diárias da vida séria. Tornámo-nos, no entretanto, grandes artistas, capazes de bufar, em hexâmetros, as nossas pueris ficções diárias. Quanta tristeza há quando para suportar a realidade já nem a ficção nos vale.

Que descanse em paz.    

 

JOSÉ LOPES (1958-2019)
"A brincadeira com a banana e a fita adesiva trouxe-me à memória a Eugénia, que já cá não está e fazia entrevistas absurdas no Chiado, nos anos 80 (os anos que mais pediam absurdo na rua porque era possível e porque a realidade ainda não era absurda, roubando trabalho honesto aos artistas honestos). E agora vem a notícia de que o Zé Lopes também já foi, encontrado no tugúrio onde morava por um amigo um par de dias depois de morrer. Agora há um pedido de donativos solidários para lhe pagar o enterro, e não escapa a muitos de nós que melhor teria sido tal ser feito em vida. Não o funeral, mas o donativo solidário, para viver. Para não ser enterrado em vida, precisamente.
O Zé Lopes foi o primeiro grande actor que conheci, ainda no teatro da escola, Os Arletes, em 1975, orientados pelo professor Limpinho, de Filosofia, que ainda cá anda (parece) mas está difícil de localizar por quem para com ele tem (e somos muitos) uma dívida de gratidão.
Nós éramos aprendizes de, o Zé Lopes era já actor autêntico. E actor se tornou.
O que têm os actores que os torna tão frágeis, vulneráveis à chuva ácida? Ao contrário dos espertos como eu que nos habituámos a só sair à rua de gabardina com protecção anti-bala?
O teatro nunca foi o nosso forte em escrita (pouca, poucachinha ao longo de oito séculos brilhantes para a poesia e a prosa, artes mais solitárias, logo mais adequadas ao clima português) mas foi vibrante em palco, mesmo quando o público voava noutras direcções. O teatro exige um público, uma sociedade que saiba dialogar, onde até o mais fraco tenha afiada língua contra poderoso senhorito, e nós sempre fomos mais de calar que de falar. «O silêncio é de ouro, o diálogo mata», poderia ser um lema.
O Zé Lopes foi. Já cá não está. A última vez que o vi não tive a certeza de que era ele e, quando o pude ir procurar, tinha desaparecido.
Agora desapareceu. Fica a memória, o algum remorso, a voz e a presença claras, de quando era um actor feliz. Se justiça houver, estará neste momento a receber aplausos, o melhor prémio para um actor. De dinheiro (o segundo melhor prémio para um actor) já não precisa. Apenas nós, para o seu funeral".

De Rui Zynk.

 

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