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B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

15.07.20

"A Mamã" (final, 18 anos mais tarde)


Vorph "ги́ря" Valknut

E no riso exuberante do filho querido, a jovem mãe descobre em si mesma um mundo de deleites.

O Luís, rapaz a fazer vinte e seis anos, há dois desmobilizado do exército português, apresta-se a deslocar-se para norte, Uíje, onde um trabalho desejado fora-lhe finalmente concedido.

Sairia para lá no dia seguinte pelo início da manhã, e rapaz prevenido já arrumara a sua mala pelo que, quando a hora chegasse era só pegar nela e abalar.

Pelo fim do dia, início da noite, resolveu ir comprar tabaco a um bar perto de sua casa, cujo proprietário era um estimado conhecido seu, e se porventura encontrasse por lá uns amigos, beber uma cerveja e cavaquear um pouco com eles.

Não encontrou nenhum por isso comprou os cigarros e bebeu a cerveja ao balcão, e quando se preparava para abandonar o local e ir mais cedo para casa, reparou num homem que sentado numa mesa ao fundo da sala, olhava para ele. Aliás, já tinha reparado antes, na noite anterior quando ali se encontrava com os amigos sem que, contudo, lhe atribuísse particular significado, mas hoje fazia-o e desagrava-lhe sentir-se alvo de um escrutínio tão rigoroso. Raciocinou que nada podia fazer, encolheu os ombros e abandonou o local.

Imediatamente o estranho observador se levantou também, saiu e seguiu-o nos seus passos. O rapaz parou, voltou-se e esperou que ele chegasse até si. À brusca paragem do Luís, o homem deteve-se, mas vencida a hesitação inicial, avançou e veio até ele.

Chegou, cumprimentou e perguntou-lhe se se chamava Luís de… que de pequenino habitara em tal lado na Vila Clotilde, e o rapaz confirmou.

Perguntou-lhe então se se recordava de uma senhora sua vizinha, muito bonita e que gostava muito dele, e antes de concluir a pergunta, o rapaz interrompeu-o e exigiu saber a causa do interrogatório.

Apresentou-se então como sendo aquele rapaz, que ele, Luís, uma vez o vira beijá-la.

Uma fúria selvagem espoletou inopinadamente e a sua primeira reacção foi levar-lhe as mãos à garganta e estrangulá-lo até à morte, mas um resto de razão, conteve-o. Algo lhe dizia para ouvir esse homem: e ele disse.

Depois da morte dela ele fora para a África do sul, mas há aproximadamente cinco anos e tendo a vida estabilizada naquela país, voltara a Angola expressamente para matar o assassino.

Descobrira onde morava, e a partir desse momento nunca mais fez uma viagem que ele o não seguisse. Consagrara dois anos a essa missão, até que a oportunidade surgira. Era noite, chovia intensamente e provavelmente devido à intempérie, praticamente não se viam mais camionistas nessa noite. Mas ele seguira viagem e ele, o amante da esposa assassinada, seguira-o também e numa paragem que fizera para se ir aliviar ao mato, saltara-lhe de surpresa para cima, dominara-o e amarrara-o. Colocou-o dentro da cabine do camião, regou essa com gasolina e acendeu um fósforo.

   - Fiquei lá a vê-lo arder, a vê-lo assar enquanto lhe dizia quem era. - Pronunciou numa voz rouca onde o mais profundo ódio se manifestava. - Tudo limpinho. Mais um trabalhinho dos tais atribuídos à UNITA.

Pensou que ele, Luís, gostaria de saber.

   - Sim, gostei! Gostei muito sobretudo por o ter queimado vivo, e ter-lhe dito quem era. - Por que se lhe não apaziguara a amargura que durante todos esses anos carregara quando o amaldiçoara e para ele rogara a fúria do inferno, esta inopinada revelação que ultrapassava as suas maiores expectativas vingadoras, deveria dissipar? - Mas agora não o quero ouvir mais. Siga o seu caminho, senhor, e deixe-me seguir o meu.

   - Pensei que gostasse de saber. - Denotando uma grande surpresa, incrédulo, olhava para ele sem compreender. - Ele morreu! Eu matei-o!

   - Mas estás tu vivo, assassino! - Uns restos de razão sobrepondo-se à sua natureza selvagem que o impelia a matar esse homem! - Estás tu vivo! Se viestes de Portugal para lha roubares e fugires com ela para a África do sul, por que razão, cobarde maldito, protelaste tanto dando-lhe tempo para a assassinar? Foste tu quem a matou, ele só premiu o gatilho.

Sentindo perder o domínio sobre si, virou-se e iniciou a retirada. A voz triste e magoada nas suas costas, pela inflexão dolorosa, fê-lo deter-se.

   - Então não sabe? - Mais do que indagar, parecia desabafar um fardo cuja força não era suficiente para carregar.

   - Não! Que mais devo saber, desgraçado? Virara-se repentinamente e crescia para ele. - Assassinaste-a, assassino! Vê, miserável! Ainda tens nas tuas mãos o sangue dela.

Acabrunhado, quase humilde, numa voz embargada pela comoção, ouviu dele a terrível revelação, há quase vinte anos oculta.

   - Quisemos fugir a tempo, sim. Tantas vezes ela esteve dentro da minha carrinha com a mala pronta a partir, mas desistia sempre no último momento. Dizia que não podia deixar o seu menino, abandonar o seu filho.

Não se recorda bem do que se passou a seguir. Vê-se numa louca correria para casa, desesperadamente procurar por todo o lado as chaves da carrinha, não escutar nem responder a pai e mãe, tomar o volante e acelerar para lá, para o velho cemitério há mais de oito anos abandonado.

Salta da carrinha antes dela se imobilizar completamente e com um salto demencial transpôs os mais de dois metros do muro do cemitério. Corre, corre como um louco, passa pelas campas das duas irmãs e com um mamã que lhe despedaçou a alma, foi cair sobre o mármore da dela onde lá passou toda a noite a chorar e a pedir-lhe perdão.

Rompia a alva quando de lá saiu. Foi a casa buscar a mala e sem tomar banho, sem se barbear nem mudar, sem atender pai nem mãe e sem comer, pegou nela e partiu para o trabalho que o aguardava.

 

Texto gentilmente cedido pelo caro "Acutilante". 

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