Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

06.07.20

"A Mamã" (2ªpt)


Vorph "ги́ря" Valknut

Ultrapassado o incidente, que na verdade nem o chegara a ser, a dona da casa convidou-a a ficar e a jantar com eles.
Ela agradeceu e aceitou, sobretudo nessa noite em que se sentia tão sozinha com o marido em viagem, - como teve o cuidado de referir.
Durante a refeição, com o rapazinho sentado ao lado dela, mostrava-se simpática e afável para todos, e um pouco menos para ele. Não se coibiu, contudo, na hora em que se despediam, com ar evidenciando algum temor, perguntar à mãe se não se incomodava que o Luís a visitasse sempre que quisesse, e se podia de vez em quando jantar com ela.
A mãe aceitou, naturalmente. - A doença da bebé ocupava-lhe a maior parte do tempo, - mas mesmo que recusasse, o rapazinho a quem nem uma vírgula escapara, já estava determinado a desobedecer-lhe.
Passaria a ser rotina. Ele vinha do colégio direitinho para a casa dela; comia bolo de coco e bebia laranjada e leite, conversava, brincava e ria com ela, e quase sempre fazia-lhe companhia ao jantar. Depois e sem a aflição das horas, pegava-lhe pela mão e ia entregá-lo a casa.
E ela passou a controlar as suas compras pelo horário escolar dele. Pegava-lhe pela mão e ia fazer as compras com ele. Depois fazia inauditos malabarismos de ginástica para carregar os cartuchos das compras ao colo com a ajuda de um só braço, para ter o outro livre a fim de lhe dar a mão.
Adorava levá-lo assim, pela mão, e embevecida mostrar-se em todo o lado com ele.
Uma tarde em que por motivos de doença da professora o irrequieto Luís saiu mais cedo, resolveu explorar um caminho escuso onde quase não passava ninguém pois se dizia aparecer por lá um lobisomem sinistro, e ao contornar uma esquina apertada, deparou-se com ela abraçada a um rapaz, a beijarem-se.
Ela soltou um grito aflitivo, separou-se atabalhoadamente dos braços que a abraçavam e fugiu a correr. Ele, o rapazinho, quedou-se como petrificado sem reacção nem entendimento para nada. Não obstante a sua terna idade, e, sobretudo, os conhecimentos de hoje que uma criança dessa idade eventualmente possa ter, o mais que conhecia como tecnologia era o grande rádio de madeira amarela a válvulas, que o pai recentemente adquirira para casa.
Mas, instintivamente sabia que algo não estava bem, sem, contudo, conseguir a si mesmo explicar o porquê.
À falta de explicação, arranjou a culpa. Para ele. E agora? De certeza já não quereria mais ser sua amiga, já não lhe daria mais a mão nem se passearia com ele, e tudo por culpa sua que tivera a maldita curiosidade pelo malfadado licantropo.
Sentindo-se profundamente responsável, e culpado, passou a evitar a casa dela vindo por outro caminho, no seu regresso do colégio.
Três dias depois, quando nesse profundo estado de desânimo consigo mesmo se encaminhava para casa, encontrou-se com ela que fora fazer compras a uma loja distante, por acaso mesmo encostada a rua por onde ele agora passava.
Mostrou-se muito surpreendida quando o viu e não disfarçava o nervosismo, que frases rápidas, umas a seguir a outras que ainda não tinham obtido resposta, tentava ocultar.
Visivelmente receosa, perguntou-lhe se não queria acompanhá-la a casa, porque nessa tarde, mesmo por acaso, fizera um bolo muito especial. Para o rapazinho, foi como o Céu abrindo-se.
Segurou com um braço os cartuchos das compras apertando-os contra o colo, e deu-lhe a mão disponível.
Dentro de casa ela mostrava-se tímida e receosa. Brincava e ria na mesma, mas as suas acções eram como que forçadas e sem a espontaneidade de antes. Subitamente, e sem que a razão tivesse alguma coisa a ver, ouviu o rapazinho, numa voz baixa e, considerando a idade e os conhecimentos, extremamente comovida:
   - Eu não digo nada.
Soltou um grito, correu para ele e apertando-o num abraço cerrado contra o peito, mais do que falar, soluçou:
   - Meu filho! Meu querido filho do meu coração.
E sem nada pensar, a feliz criança pronunciou as palavras que a condenariam.
    - Eu também quero que seja minha mamã.
continua.

 

Texto gentilmente cedido pelo caro amigo "Acutilante", que fará parte de um Conto a ser publicado, aqui, no Alterne de Vossas Excelências. Bebidas por conta da intendência.

7 comentários

Comentar post