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B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

01.07.20

"A Mamã"


Vorph "ги́ря" Valknut

Por meados do ano de 1949, o pequeno Luís, com oito anos feitos, ao regressar do colégio, como habitualmente quase ao cair da noite depois de ter passado boa parte da tarde a jogar futebol de rua com os amigos, deparou com grande agitação na sua casa. Fora-lhes fazer uma visita de cortesia um casal que há pouco tempo se mudara para lá, Vila Clotilde, hoje parte nobre da cidade de Luanda, mas naqueles longínquos tempos arredores bem afastados.
Ela era uma jovem senhora para aí à volta dos vinte e seis anos, rapariga, portanto, mas para ele, Luís, criança de oito anos, era mais uma senhora como a sua mãe com apenas uns dois ou três anos menos e indubitavelmente muito mais bonita.
De facto a leitura do rapazinho não fora exagerada, e era realmente uma mulher de uma beleza surpreendente. Conjugava ainda, o que a beleza realçava, uma imensa e doce simpatia que tornava a bela figura numa presença agradabilíssima, tudo aliado a uma extremosa educação.
O marido era exactamente o oposto. Mais velho, dez anos, rude e tosco, falava muito alto, interrompia as pessoas e ria-se das suas próprias piadas. Cortava a palavra à mulher e criticava-a a propósito de tudo e de nada. Era proprietário de um camião, portanto rico, ou para lá caminhava já que quase toda a circulação de mercadorias na colónia era por essa via que se efectuava.
Talvez fosse isso que a levasse ao casamento com ele, quando, uma vez, ele por lá apareceu na Metrópole, como então na colónia se denominava Portugal, rotulado de rico.
E desde o primeiro momento em que o garoto entrou na sala, nunca mais os olhos dela se despegaram dele. Seguia-lhe todos os movimentos, interessou-se por tudo que ele fazia e dizia, sorria simpatiquíssima para ele e achava-lhe muita graça. Praticamente deixou de prestar atenção às conversas dos adultos para vir para ao pé dele. E sorria-lhe, sorria e ria encantadora; ria sempre.
No outro dia ao regressar do colégio, ela estava à janela e não disfarçou que o esperava. Convidou-o a entrar para comer com ela um delicioso bolo de coco que fizera mesmo há bocadinho especialmente para ele, pois já sabia pela sua mãe que ele adorava bolos de coco.
Lá dentro o mesmo procedimento do dia anterior. Rodeava-o de atenções, insistia para que comesse mais um bocadinho, se estava a gostar do bolo senão que lho dissesse como gostava que ela fazia.
Interessou-se pelos seus estudos, pelo futebol, quantos golos marcara. Lembrou-se subitamente, foi a correr para um quarto e veio com um livro que lhe ofereceu, “A gatinha encantada” da colecção Manecas, e que seria o seu primeiro livro.
Disse-lhe também que era um menino muito bonito. Que as irmãs não eram feias mas ele era muito mais bonito; o menino mais bonito que já vira na sua vida. E sempre o radioso sorriso emoldurando-lhe a bela face.
Com tudo isto o tempo foi passando, deu-se subitamente conta e ficou muito aflita. Pegou-lhe pela mão e foi levá-lo a casa.
Lá dentro desculpou-se com a mãe dele que a culpa era toda dela, mas a mãe não se preocupou por aí além porque na verdade não passavam mais de dez ou quinze minutos da sua habitual hora de chegada.
No outro dia tudo se passou exactamente como ao de véspera. Mais espera à janela, mais bolo, mais laranjada, mais brincadeiras, mais sorrisos e mais um livro.
De repente, enquanto ele metia a fatia de bolo no copo de laranjada, perdeu o lindo sorriso e de olhos humedecidos onde uma indisfarçável mágoa transparecia, olhou para ele e numa voz triste e sentida, as palavras saíram-lhe dolorosas:
   - Que feliz é a tua mãe, meu queridinho. Com quatro filhos e só a mim Deus não dá nenhum.
Animou-se de seguida, deu-lhe a mão e foi entregá-lo a casa.
Lá dentro, e depois de mais uma vez se desculpar com a mãe dele pela demora, reiterou para a amiga o que antes desabafara na casa dela, para o filho daquela. Que ela devia ser a mulher mais feliz deste mundo, com quatro filhos.
A mãe do rapazinho olhou para ela com ar divertido, e respondeu-lhe que a mais infeliz, isso sim! Nem ela sabia o trabalho que os quatro lhe davam, sobretudo agora que a bebé adoecera.
Ela aproveitou a maré de boa disposição evidenciada pela amiga, e avançou se lhe queria dar o Luís, que nada lhe daria mais felicidade do que ser mãe dele.
A boa disposição da mãe eclipsou-se num ápice e olhou para ela com ar muito sério. Parou imediatamente de rir e balbuciou, meio atrapalhada, que só estava a brincar.
(continua).
 
Texto gentilmente cedido pelo caro amigo "Acutilante", que fará parte de um Conto a ser publicado, aqui, no Alterne de Vossas Excelências. Bebidas por conta da intendência.
 

 

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