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B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

11.07.20

"A Mamã" (3ªpt)


Vorph "ги́ря" Valknut

E o tempo foi passado para a mais deleitosa felicidade de uma mãe que não era mãe e de um filho que não era filho. Estavam quase sempre juntos. Comendo, brincado, passeando, comprando e rindo; rindo muito, rindo exuberantes.
 O marido, e devido às más condições das estradas de então; em terra e acompanhando o relevo o que fazia que no tempo das chuvas um camião estivesse mais tempo atolado que em movimento, raramente estava em casa.
Situação essa que, obviamente a nenhum dos dois incomodava.
Dois meses depois, seriam umas dez horas de uma noite de Sábado, a quietude circundante foi ultrajada por dois estampidos de uma arma de fogo.
Nunca soube o impulso aflitivo que o levou a correr desenfreado para a casa dela, mas mercê dessa estranha atitude, foi o primeiro a chegar.
Ligeiramente inclinada sobre o lado direito, ela estava nua sobre os brancos lençóis. O braço pendia fora do leito por onde o sangue que aos borbotões do seio trespassado jorrava, o conduzia até à mão que os dedos deixavam livremente escorrer para o chão, que a uma velocidade estonteante ia alastrando formando um lago sobre o lajedo. Sentado numa cadeira e com a pistola ainda fumegante na mão, o marido repetia incessantemente.
    - A minha honra. A minha honra manchada.
O entendimento de uma criança que não compreende, que olha para ela esperando que se levante. Estranhamente não chora.
    “A minha honra. A minha honra manchada” Repercutindo-se, martelando-lhe o cérebro, destroçando-lho. Uma vontade louca de correr para ela, de a abraçar e beijar, de ser abraçado e beijado: “mamã.”
A casa foi-se enchendo de gente que vinha correndo. O seu pai foi dos primeiros a chegar e rapidamente procurou pelas gavetas qualquer coisa para cobrir o ensanguentado corpo desnudo. Depois pegou no filho ao colo e correu com ele para casa.
Não foi ao enterro. Compreensivelmente os pais fecharam-no em casa. Menos de uma semana depois sabia onde era a sua campa. E sempre, sempre: "A minha honra, a minha honra manchada"
Um mês depois outro drama se desenrolava na casa do Luís. A bebé a fazer dezoito meses, não resistira à doença e acabara por falecer e quase três anos depois, a sua irmã mais velha, num fim de tarde de um fatídico Domingo, perderia a vida num estúpido acidente rodoviário.
Os pais quase enlouqueceram, ou enlouqueceram de facto durante longos meses, e quando parcialmente se recompuseram abandonaram a casa e o bairro e foram morar para outro bem distante.
Não suficientemente longe porém para que o rapazinho oculto por detrás de um monte de sucata do outro lado da rua, não se perdesse em infindáveis horas e horas na contemplação da janela cerrada.
Levaria anos a afastar-se de lá. Vazio de pensamentos, olhava a empoeirada janela fechada, à qual o capim que crescia livremente já dava por mais de metade, da casa maldita que nunca mais seria alugada.
Ao assassino nada aconteceria. Os factos falavam por si. Apanhara-a na cama com outro. Lavara a sua honra, como então não só se dizia como se aceitava como normal.
O chefe de posto, acompanhado de dois cipaios, veio buscá-lo e levou-o com ele para o posto. Entre uns copos e umas cigarradas ouviu-o compreensivo, animou-o e com uma palmadinha nas costas despediu-se dele. Tivesse coragem que infelizmente não fora o primeiro, nem seria o último a ser envergonhado por uma mulher adúltera.
Saiu portanto se não dignificado, pelo menos devidamente perdoado. Sobretudo pelas mulherzinhas da época, almas alvas, corações puros, abençoadas piedosas, sagradas virtuosas.
   "Vocês já viram? Jesus! Nem quero acreditar. Não que não fosse boa rapariga, que até era, mas há coisas que não se fazem a um homem. Na cama dele."
   "Tens razão, Ana, tens. E logo na cama dele. Credo!"
Na cama dele!
E para quem porventura desconheça o que naqueles tempos aos direitos da mulher concernia, tudo era dele…deles.
A cama, a mesa, a cadeira, a casa, o dinheiro, a cerveja, o camião, a mulher, os pensos da mulher, os pensamentos da mulher, tudo era dele…deles.
Matara a mulher e poupara-lhe o amante. Talvez resquícios naquela consciência culpada tivessem parcialmente emergido mostrando-lhe as negras que ele não poupava a troco de uma simples boleia.
Limitou-se a mudar de casa e a repreender a sua vida.
Sobre o amante, saber-se-ia que era o antigo namorado que ela deixara em Portugal e que sabendo-a infeliz com o casamento, viera propositadamente a Angola a fim de a roubar ao marido e fugir com ela para a África do Sul.
Continua.
 
Texto gentilmente cedido pelo caro, "Acutilante".

 

 

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