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Blogue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

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Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

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Trabalho, Crime e Castigo

 

"Com o suor do teu rosto arrancarás, de uma terra infértil, o alimento para ti e a tua família, até que voltes, de novo, à terra de onde vieste" - sentença de Deus, a Adão, após a sua expulsão do Éden.

 

Porque razão foi o Trabalho visto, pelos primeiros Homens do tempo histórico, como uma maldição, como um castigo,  e na modernidade como a Instituição Cultural mais poderosa, definidora da "essência" humana - Homo faber?

 

Os nobres, da Idade Média e mesmo aqueles de tempos mais tardios, desdenhavam os que do trabalho fizessem o seu viver. Em suma, desdenhavam o povo, essa massa amorfa sem Tempo, por causa da sua dependência do trabalho, e impossibilitada, por isso, de participar no estudo e gestão do Estado (os políticos eram os Poderosos que dispunham de Tempo para decidir sobre os assuntos da Pólis)  - Ter Poder é dispor do seu Tempo.

 

Também os religiosos, Padres da Igreja, assim o pensavam. A indignidade, para estes cientistas das alturas, seria a sujeição do livre Espírito à ditadura do corpo material - daí o jejum, a mendicidade, celibato, terem como significado/objectivo a libertação, pelo domínio das necessidades humanas, demasiado humanas, de uma carne fraca. Também eles viam no trabalho para (sobre)viver, uma concedência à mundanidade pecadora, havendo, contudo, já por essa altura, a dicotomia entre o Superior "trabalho intelectual" - o pensamento do pensamento - , em contraposição ao vil (de vilão, habitante de aldeia) trabalho braçal - o pensamento ao serviço da produção de coisas.

 

Os "nobres" sempre viveram, e vivem, ainda, mas mais disfarçadamente, do trabalho de outros. E aos servos, de outrora, deu-se, "hoje", o nome, eufemistico, de empregados. As mudanças das Palavras, na maioria das vezes,  expressam não mudanças reais de conceitos  (significado),  mas sim o desejo de que o mesmo conceito seja interpretado de modo diverso - ex: O líder (conotação neutra) da Coreia do Norte vs O Ditador  (conotação negativa) da Coreia do Norte; Refugiados (conotação negativa) vs Retornados (conotação neutra) ultramarinos; Ortodoxos (conotação neutra) vs Fundamentalistas (conotação negativa); Doença x que apresenta uma taxa de mortalidade de 20% (conotação negativa) vs Doença x que apresenta uma taxa de sobrevivência de 80% (conotação positiva) ....a palavra empregue muda, assim, a percepção de um Mesmo Conceito. Aconteceu  o mesmo com o Trabalho e a Servidão. A antiga preocupação do empregador de servos era que estes obtivessem, materialmente, o suficiente, para não morrerem, continuando produtivos. Os empregadores ,de hoje, fazem exactamente o mesmo, pagando um trabalho,  em muitos casos, de 10 ou mais horas, com "salários de fome". Como pode ser livre um Homem que não disponha de pelo menos 2/3 do seu tempo, perguntava Nietzsche.

 

Convém, pertinentemente, relembrar a origem etimológica da palavra Trabalho -  provêm da palavra, grega,  "dor" -  essa dor, ainda recordada, na expressão popular,  "em trabalho de parto" = "dor de parto".

Um  castigo deve possuir um estimulo aversivo, que vise o condicionamento de uma conduta, considerada imprópria.
Assim quando se diz, imperativamente, "Vai trabalhar!" está implícito, em quem o diz, um desejo de castigo para aquele que o ouve - O "vai trabalhar" é metaforicamente, ainda, um desejo de punição. "Ao vai trabalhar" está  associada um sentido negativo, uma admoestação moral.

 

Sendo o Homem, um animal ambivalente, criador e servidor das ideias que cria e o possuem (os memes), não, já, macaco, mas ainda um não anjo, tornou, astutamente, o castigo-trabalho, inescapável,  num elemento sagrado, num elemento ontológico, definidor do ser: Ao quem és, respondemos com o que fazemos. Afinal, quem somos, quando não trabalhamos? 

Esta defesa do trabalho, como elemento ontológico, julgo, derivar da ideia Calvinista, e burguesa, de Graça/Predestinação. Nesta está imbuída a crença num destino pessoal, atribuído por deus, umas vezes, e ao mérito, noutras (e quanto o devemos ao acaso?) sendo o sucesso/insucesso pessoal, a prova da nossa Graça Divina/Pessoal (de fazermos parte dos Escolhidos/Elite). Daí a disciplina do trabalho se ter tornado uma ética religiosa (A Ética Protestante e o Espírito Capitalista, de Weber). Uma ética, ainda, cristã justificada na mortificação, como não poderia deixar de ser ( o castigo/sofrimento como o único, válido,  caminho para a Salvação. Afinal Cristo sofreu, para nos salvar. É dele, o Exemplo). A Disciplina do trabalho implica, assim, sacrifício pessoal, sentindo-se nesse sacrifico, não uma punição, mas  um bem moral - não usamos o Trabalho como desculpa para quase tudo?  O Trabalho é o Altar.

 

Os sistemas de pensamento/ideologias, legitimam, visam, sempre, a libertação de uns (Patrão/Nobre/Empregador) pela condenação de outros (assalariados), dependendo o seu sucesso ideológico,  da habilidade retórica com que se convencem os condenados da sua infinita liberdade - Toda a Ideologia de Poder tenta legitimar a desigualdade/assimetria de poder, através de algum tipo de explicação metafisica absoluta (ex: o sistema desabaria caso não houvesse desigualdade - são os ricos que tiram os pobres da sua pobreza. Contudo, também, seria válido o raciocínio oposto - não é toda a pobreza resultado de alguma riqueza? ex: Garret: Quantos pobres são necessários para fazer um rico?). Cito o seguinte parágrafo, que ilustra o afirmado:

 

"Os trabalhos manuais eram considerados indignos para a nobreza. O clero era igualmente dispensado do trabalho braçal. Mas a ideologia da igreja e moral da época pregava o trabalho como virtude, condição de salvação para a vida eterna. Os pecados capitais condenados pela igreja (preguiça, gula, luxúria, avareza, ira, orgulho e inveja) eram para as almas pobres. Nobreza ou clero, porém, não ficavam imunes à tentação e a estes pecados, só que sem culpas, problemas ou condenação."

 

Mudámos o nome a Instituições Culturais que proibidas perduram, ainda, disfarçadas sob novos Baptismos. Para uns quantos serem livres de trabalhos, convencemos outros que o "Trabalho Liberta"

 

 

2 comentários

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    Vorph Valknut 01.12.2018

    Desculpa pela confusão da resposta mas fiz copy/paste de um artigo….futuramente irei deambular, mais, sobre este interessante tema
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