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B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

29.09.20

A vida assim.


Vorph "ги́ря" Valknut

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- Então, como tem andado?

- Fui atropelada, vai fazer um ano. 

- Onde? 

- Lá em cima, na avenida, como quem vai para o Jumbo. Ia na passadeira. Um senhor muito simpático. Deu-se como culpado. Levou-me ao hospital. Fizeram rx, não tinha nada e vim para casa. Na manhã seguinte não me conseguia levantar. Andei uns dias a tirar líquido, tipo sangue, do joelho, com uma seringa. 

- Bem... E o Seguro?

- Disseram que pagavam tudo, no final. Entretanto andei a fazer fisioterapia, a pagar do meu bolso. 

- E o Seguro?

- Telefonei. Disseram que pagavam, mas tinha primeiro de ir ao médico deles, que trabalhava num hospital privado. 

- E?

- Fui lá, palpou-me o joelho, disse-lhe que parasse pois doía. Depois mandou-me levantar da marquesa e perguntou-me a idade. 52. Disse que agora tinha de me habituar. É a vida. Mandou-me assinar uns papéis. Não assinei, e vim-me embora. Está tudo com o advogado. A médica do posto não queria acreditar. É tudo uma vergonha. Bem, olhe, vamos ver. Se der, dá, se não der...é assim, a vida. 

- Bom, desculpe. Aonde é que nós íamos? 

- Assim, desta maneira, vamos pouco, para qualquer lado. 

 

23.09.20

Cogumelos +Johan Edlund


Vorph "ги́ря" Valknut

This dole crowner gallows me

As this mere welkin hallowed be

Whereupon i trick and train and tire

To limn my umbered love in fire

Before this noble mare bewrays

As i clearly see it all decays

In debile coil of smoke suspires

May our last orison quickens as we

Are drumbling near this poize of free

Quell me maculate slowly dyer

Case my remains with sharpened brier

Atone me to my throes curtail

To dim and dire fields i vail

And my eale's but a slumbering lier

Then so lingered here but none

To buckle back what had begun

In molten aeons caged desire

Dared phantasma us much higher

Ceased to milch the clover flower

Neither raindrops nor my lover

Shall restore what has been done

When we're all keeled in freezing sun

22.09.20

De onde vem o mérito? Uma pergunta de iniciativa liberal.


Vorph "ги́ря" Valknut

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Todos nós conhecemos a meritocracia, e poucos desconhecem as leis do acaso, adágio das parcialidades naturais.  Pensemos nos equilíbrios cósmicos como vinculados aos desequilíbrios de baixo. Não devemos, assim, ter vergonha ou culpa da falta de fortuna. A fortuna sendo caprichosa é independente do capricho humano.

Entendemos que, de uma ou doutra forma, deverá haver uma compensação, um reconhecimento, pela superior competência, pelo destaque. Mas pergunto, sem gozo ou ironia : Como se mede o mérito, ou melhor, será o mérito "constante" de um esforço pessoal ou "variável" de um tipo de contexto social, que permite, a alguns, a expressão máxima de uma qualidade embrionária, mas que, nos numerosos, não escapa de uma natividade semi-morta?

Partirão, consequentemente, uns quantos de nós, à frente, nessa corrida até aos nobres feitos, de mão dada a Tique? 

Exemplificando:

Imaginemos um ser-alguém, nativo "de classe operária", de signo perdido que, sem grandes condições ou desafios, alcança a cadeira do magistério primário. Imaginemos outro, galhardo, que tendo lucrado refinada educação, e vida requintada, colhida de heranças e apelido paternos, empunha, quando feito maior, um cajado de Esculápio. Qual destes dois espécimes gozará de mérito superior?

Dou aval ao reconhecimento do mérito, desde que compreendamos e contemplemos as suas complexas teias sociais. 

21.09.20

Pessoa desengodado


Vorph "ги́ря" Valknut

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Todo o grande partido político de oposição , ou seja, todo o partido de oposição que adquire vulto bastante para subverter um regime ou parte dele, se forma com a congregação de três elementos distintos, e não está completo, nem apto para efectuar o intuito, em torno do qual se gerou, senão quando efectivamente congrega todos esses elementos.

 

Esses três elementos são: um pequeno grupo de idealistas cujas ideias se infiltram abstractamente por vária gente inactiva; um grupo maior de homens de acção, atraídos pelos elementos activos e combativos do partido, e já distante psiquicamente de todo o idealismo propriamente dito; um grupo máximo de indivíduos violentos e indisciplinados, uns sinceros, outros meio sinceros, outros ainda pseudo-sinceros, que, por sua própria natureza de indisciplinados e violentos, ou desadaptados do meio, naturalmente se agregam a toda a fórmula Política que está numa oposição extrema.

Quando o regime ou fórmula, que assim formou partido, conquista o poder, desaparecem os idealistas, pelo menos na sua acção, que acabou historicamente com a realização; assumem o poder os homens práticos, os anónimos derivados dos idealistas e os mais elementos. Agregam-se, formando com estes últimos um pacto instintivo, os que querem comer do regime real. Tal é a história de todas as revoluções; por alto que seja o ideal de onde se despenharam, vêm sempre ter ao mesmo vale da sordidez humana.

Forma-se uma ditadura de inferiores. Um período revolucionário é sempre uma ditadura de inferiores.

A situação de Portugal, proclamada a República, é a de uma multidão amorfa de pobres diabos, governada por uma minoria violenta de malandros e de comilões. O constitucionalismo republicano, para o descrever com brandura, foi uma orgia lenta de bandidos estúpidos.

Mas — e assim é a humanidade —, através de tudo, e até nas almas de muitos desses bandidos, subsistia qualquer coisa do impulso lírico do ideal originário. E assim se via bandidos da pior espécie — gatunos de alma, vadios orgânicos — baterem-se com bravura pelo ideal que julgavam que tinham.

 

s.d.

Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 128.

20.09.20

A Ditadura da Felicidade


Vorph "ги́ря" Valknut

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SINOPSE

A indústria da felicidade, que movimenta milhões de euros, garante transformar os indivíduos em pessoas capazes de dominarem os seus sentimentos negativos, e de tirarem o melhor partido de si próprias por meio do controlo completo dos desejos improdutivos e dos pensamentos derrotistas.

 

Porém, não estaremos perante um novo ardil que visa convencer-nos, uma vez mais, de que a riqueza e a pobreza, o êxito e o falhanço, a saúde e a doença são única e exclusivamente da nossa responsabilidade? E se o propósito da chamada «ciência da felicidade» for a criação de um modelo social individualista que renega qualquer ideia de comunidade?

 

CRÍTICAS DE IMPRENSA

«Eva Illouz e Edgar Cabanas atacam sem contemplações a ditadura da felicidade. Um livro esclarecedor, importante e urgente para compreender a ascensão de uma ideologia difundida no mundo e que está ao serviço dos poderes instituídos.»

Marie Lemonnier, L'Obs

 

«No seu livro mais recente, os autores denunciam a imposição que nos é feita de sermos felizes. Esta ideologia, de que a psicologia positiva é o braço armado, tem um único objetivo: culpabilizar os indivíduos e exaltar o neoliberalismo. Uma vez mais, os autores querem “pôr a sociologia no local onde domina a psicologia”.»

Virginie Bloch-Lainé, Libération

 

«Uma crítica justa à tirania de um modelo de felicidade artificial, privado de qualquer contexto social.»

Jean-Marie Durand, Les Inrocks

19.09.20

As Redes Sociais/Internet são a Reforma democrática.


Vorph "ги́ря" Valknut

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As redes sociais não constituem uma ameaça à democracia, representam, isso sim, uma ameaça às redes de influência que, ao longo de décadas, a usurparam. 

Tal como, no século XVI, Lutero e os Protestantes deram, ao povo, o conhecimento bíblico directo, sem intermediação dos vigaros vigários, em aberto protesto contra os abusos de Roma, as redes sociais e, consequentemente, a Internet democratizaram a informação, cativa, durante demasiado tempo, de uns selectos manipuladores, eufemisticamente designados por, "intermediários". Estes, escudados pela Palavra do Senhor, e pela ignorância, da maioria, dos textos sagrados, estabeleceram um sistema decadente, corrupto e causador de inúmeras misérias humanas (o conhecimento como instrumento de Poder).

Ora as redes sociais /internet, ao democratizarem a informação, ao dispensarem os farsantes "intermediários", permitiram, ao povo, o saber, ao "vivo e em directo", de perigosos conhecimentos, afectos aos mecanismos democráticos. Desta forma, a Internet foi para a Democracia o mesmo que a Reforma Protestante foi para a Religião. Sabendo, nós, que o movimento Protestante enfraqueceu a Religião, pelo surgimento, posterior, de diversas Igrejas/Escolas Reformistas, é natural que a Internet fragilize a Instituição Democrática (Quod erat demonstrandum). Mas, como disse, a culpa é do Sistema Político e não do "Sistema Informático". 

 

19.09.20

"Quando te sentires a cair bebe um pouco mais".


Vorph "ги́ря" Valknut

 

"Not far from where I live,

They glance in morning breeze.

As dividing tiny rays,

A morning tries to seize.

My proud little soldiers;

Of brown, purple, and grey.

Carry us on your shoulders,

Carry us far away.

In shades of purple cloth,

They guide us to the light.

With irresistable pride,

To the feast they, us, invite.

My proud little soldiers;

Of brown, purple, and grey.

Carry us on your shoulders,

Carry us far away.

If you begin to fall,

Please have some more.

You could stay at my place, if you want,

I'll sleep on the floor.

If you begin to fall,

Please have some more.

You could stay at my place, if you want,

I'll sleep on the floor.

If you begin to fall,

Please have some more.

You could stay at my place, if you want,

I'll sleep on the floor."

 

Ontem, no carro, 3 horas de audição ininterrupta. 

18.09.20

Passado revisitado


Vorph "ги́ря" Valknut

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Ouvi, certa vez, um médico, de uma Unidade de Cuidados Paliativos, dizer que o que tinha aprendido de mais importante nesses anos mais longos que os contados pela sua vida, foi, serem as coisas destituídas de preço as mais caras de toda a biografia. Nelas incluía aqueles dias ficados num sol morto de mar inerte, ou as chuvas baptismais dos finais de tarde, ou, neste agora mesmo, a árvore luxuriante entrevista por um corpo exaurido que lhe dizia: - E amanhã, o que seria? O chilrear vespertino, que não bateria ainda a Hora Certa? Ou também aquele abraço estendido nuns idos de Março? Mas, sempre e acima de tudo, há-de ficar o Beijo enlevado, guardado no nosso Amor, nas mãos dadas, que nada pareciam nesses dias de então.
Aí estava o sumário da vida ditado pela maestria dos que a ela, ainda, mais pediam, mas já não podiam (porque só damos valor quando perdemos). Guardo num bolso da alma esse testamento vital, ouvido, em dias distantes, quando da vida apenas sabia ao que sabia um pão de leite. Hoje faço-o saber sentido, luz inscrita por debaixo da pele. Afortunado sou porque a ele lhe devo as lágrimas de uma Alegria sem razão.

09.02.2019 

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