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B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

19.07.20

Comportamento Humano (1)


Vorph "ги́ря" Valknut

2019-02-13+-+Cérebro+&+emoções+-+regular+(image

Já por várias vezes discuti, aqui, ou noutro lado, sobre a existência ou inexistência do Livre Arbítrio. Sobre a possibilidade de não sermos responsáveis pelos nossos melhores ou piores comportamentos. A não haver qualquer influência consciente, na tomada das nossas decisões, o conceito de Culpa ou Mérito desapareceriam, o que para a maioria poderia ser "desagradável". Desagradável porque ao acto de culpar, julgar, os outros, estão associadas hormonas que nos oferecem uma sensação de bem estar, sobretudo quando frustrados (adoramos, "naturalmente", assistir à queda dos Ídolos). Em alemão, a esta alegria derivada da observação da dor nos outros, deu-se o nome de Schadenfreude. Durante as próximas semanas tentarei trazer aqui um tipo de resumo de um dos livros que mais me marcou, que mais me inquietou, positivamente, e no qual mais aprendi. Falo da Obra Prima de Robert Sapolsky, chamada, Comportamento, e lida e relida 4 vezes (neste momento tenho-o mais uma vez debaixo do braço). Tratando-se de um livro sobre Neurobiologia, as suas reflexões, as suas conclusões, derivadas de estudos científicos, permitem-nos que o possamos usar noutras aéreas de saber, como a História, a Antropologia, a Filosofia e a Política (sim, existe uma relação biológica entre Populismo, Racismo, Conservadorismo e o nosso Cérebro, através dos estímulos recebidos, aquando do seu desenvolvimento pré e pós natal).

O livro começa, destacando, uma estrutura cerebral denominada Amígdala, localizada, mais ou menos, sob as regiões temporais direita e esquerda do Córtex cerebral (a camada mais superficial e recente do cérebro). Os cientistas há muito tempo que desconfiavam que dita estrutura seria responsável pelos comportamentos agressivos e sobretudo pelos estados de ansiedade e pânico. Devido à Bioética, a experimentação clínica é prática impossível, resultando, grande parte dos novos conhecimentos, de acidentes ou doenças, particulares, que afectem, lesionem as zonas cerebrais em estudo. Deixo aqui duas doenças que ao afectarem a Amígdala impedem os pacientes de sentirem medo. O Síndrome Urbach Wiethe e o Síndrome Kluver-Bucy. Nestas Síndromes, a Amígdala está destruída ou afectado o seu normal funcionamento, mostrando os seus pacientes uma incapacidade para sentirem medo ou reconhecer, nos outros, expressões faciais associadas ao medo. Quanto à agressividade, nos anos 70, tentaram-se, in extremis, "psico-cirurgias" em indivíduos altamente violentos. O conceito teórico baseava-se na tal premissa, que sendo a Amígdala a estrutura cerebral responsável pela agressão, retirando-a cirurgicamente, resolver-se-ia o problema da Agressão. Os resultados foram díspares, sobretudo por naquela altura não haver equipamentos adequados para isolar, finamente, e em imagem, os limites daquela estrutura (sabia-se mais ou menos onde ela ficava, mas sem certeza onde começava e acabava). Quanto ao medo e às respostas exageradas a estímulos passíveis de provocarem temor, não foi com grande surpresa que os médicos detectaram, nos anos 90, recorrendo à Ressonância Magnética Funcional, Amígdalas anormalmente grandes nos veteranos com Stress Pós Traumático.

(continua) 

19.07.20

Samael, breve resenha.


Vorph "ги́ря" Valknut

Encartes (4).jpg

Os Samael deram os primeiros passos, a sério, no Black Metal, em 1988, com o EP, "Medieval Prophecy", o que faz deles uma das primeiras bandas daquele subgénero, extremo, de Heavy Metal. Já por essa altura a sua música era diferente da que se ouvia. Muito "negra", em virtude das composições orquestrais, recorrendo, para isso, ao piano, sintetizadores (ouça-se o arrepiante tema, "Last Benediction", do LP de estreia, "Worship Him" - 1991), a um trabalho de guitarra genial, cru, mas estranhamente melódico e à voz singular de Vorphalack, dotada de um timbre único, de tonalidades, digamos, provindas de um "mundo subterrâneo", sendo a música, "Into the Pentagram", presente tanto no primeiro EP, como no primeiro LP, um extraordinário exemplo dessa mistura. Aliás, este tema composto há mais de 30 anos!!! continua, na minha opinião de adepto, de longa data, do Black/Dark Metal, a ser "canónico". 

Após o segundo álbum, "Blood Ritual" (1992), onde destacaria o tema, magistral, "After the Sepulture", os Samael enveredam por um estilo crescentemente sinfónico, sem nunca perderem a negritude, o desespero Rebelde, Adversário, das suas composições.

É disso exemplo o terceiro álbum, "Ceremony of Oposites" (1994), que os catapultou e os confirmou como uma das melhores bandas de Black Metal de todos os tempos. A partir daí o limite, para este grupo suíço, seria o Averno. Como curiosidade este álbum ouvi-o já em CD, uma vez que os anteriores vieram parar à minha mão em cassete, fazendo, eu, zelosamente cópias das originais (era frequente, após algumas audições, o leitor enrolar, estragar a fita magnética). 

No Ceremony of Oposittes destaco a última faixa, com o mesmo título do álbum. Uma das músicas que mais ouvi e mais me puxou para um Fora de Quase Tudo. Os arranjos musicais, a letra, são majestáticos. 

"The top becomes the bottom

The fantasy becomes reality

The conceptions change

The landmarks dissolve

And all becomes intermingled

To flirt with the despicable

In a trance without end

Where the ice burns

Like glowing embers

And where one shatters

By fits and starts of sperm

The morale of men

Serve another god

Lose another dream

Sentiments imprison and leave

Their victims without defense

Love is a poison which

Flourishes in the heart of the weak

From the lowerworld we direct

The attraction of the distasteful

Makes us ignore the vile

Since only from below

Can one better see the heights"

Outro tema, deste LP, que não posso ignorar, de todo, é o fabuloso 'Till We Meet Again, que encerra em si o sumário, a Alma Mater, dos Samael de então. Ouvio-o mais vezes que o bíblico 70x7. Atirando para o ar diria que a invoquei 666 vezes. 

 

"Enchained to a shadow of the past

he walks the path of life

following the same quest, like a ghost

silly lover, silly romance,

how pathetic

constant, permanent, disenchantment

She'll be called Moonskin

and she will have the beauty of the marble

hair dancing like flames

around her snow-white shape

Enchained to the Venus spell

he left the reason behind

defiling the garden,

forcing the passage

going to the bottom, to steal the end

to shake, to shake death's hand

Once again illusion fades away, once again he's falling

as the milky stream of life goes dying

She was called Moonskin

now she's no more, but a round

bright sphere

in his night

floating in a timeless place

Enchained to a shadow of the past

he walks the path of life

carrying that old story like a cross

on which he will, on which he may

nail another star"

E porque falei no 5°Álbum (Eternal, 1999) que segue o caminho aberto por "Passage", deixo aqui umas das composições que mais gosto deste LP, e mesmo do grupo. Infra-Galaxia.

A partir de "Eternal", os Samael abandonam, paulatinamente, na imagética e nas letras, o Black Metal. 

Vorph (à dta) e o seu irmão Xy, em 2004.

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De referir, a título de curiosidade, ter sido o Black Metal a minha porta de entrada para a Música Clássica, pois era/é frequente as suas músicas incorporarem samplers de obras de certos compositores clássicos como Wagner, Prokofiev, Dvorak, Mozart, Beethoven, Mussorgsky. 

18.07.20

Nascido sob o Signo de Saturno


Vorph "ги́ря" Valknut

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Descobri o grupo suíço Samael, (nome de um importante Anjo, adversário da corte celestial de El - um dos vários nomes do deus bíblico) aos 16 anos, por aí, ao ouvir o álbum "Worship Him", em cassete. O primeiro CD/LP que comprei foi o Ceremony of Opposites, editado pela editora alemã, Century Media. A voz inconfundível de Vorphalack e a maestria na composição de Xytras, seu irmão, fizeram dos Samael um dos maiores nomes do movimento de Black Metal. Hoje, bem mais calmos nos temas (ao contrário dos idos 90), Vorph tornou-se vegetariano e Xy editou alguns álbuns de música neo-clássica. Sinais de maturidade. 

 

"Here Or There, Above Or Below

It's Always The Same Force Which Prevails

One Must Be Unreal And Surreal

To Rise Above The Fear Of Isolation

One Must Accept Exclusion

Becoming Stronger To Face Fate

Day After Day

Stone After Stone

From Disillusion To Disillusion

Defeat To Defeat

Escaping Death For Another Death

I've Built A Temple Within Myself

Where On My Knees I Wait The Day

Born Under Saturn

Dechirer Les Cieux

Born Under Saturn

Sur Terre Rapeller Dieu

There Is But A Little Time And The Road Is Still Long

Become Who You Are, Deny Who You Know...

Day After Day

Stone After Stone

From Disillusion To Disillusion

Defeat To Defeat

Escaping Death For Another Death

I've Built A Temple Within Myself

Where On My Knees I Wait The Day

Born Under Saturn

Dechirer Les Cieux

Born Under Saturn

Sur Terre Rapeller Dieu"

Era One, o nome de um projecto musical temporário de Vorph e Xy, após a saída conflituosa da Century Media. 

18.07.20

A Mamografia


Vorph "ги́ря" Valknut

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Isto já se passou há muitos anos, tantos que tinham na ocasião, ele trinta e sete e a sua encantadora mulher, sempre linda e ravissant a despertar paixões assolapadas, trinta e três.
E também decorreu em Paris, na Madeleine, onde um conceituado especialista em mamografias espalhava a sublime performance do apalpanço terapêutico.
Em conversas com amigas, queixa-se a linda mulher que lhe parecia ter detectado uma coisa dura na maminha direita. Nada de muito grave, seguramente, - explicou-se ela às amigas, já preocupadas. - Parecia uma ervilhinha e nem lhe doía, mas como agora só se ouvia falar do cancro da mama, confessou que estava um pouco preocupada.
Sugere-lhe imediatamente uma amiga expedita, que não facilitasse nem brincasse com coisas sérias e que fosse sem demora a um especialista.
   - Olha! Logo por sorte conheço um especialista em mamografias. Por acaso até é meu familiar, que nessas coisas faz milagres.
Marcou consulta e no dia aprazado pediu ao marido que a acompanhasse. Esse ainda se tentou desenvencilhar, - por acaso era um marido que a deixava respirar, - mas ela insistiu que era a primeira vez, sabia que tinha de mostrar as maminhas e não se sentia confortável sozinha.
O marido para quem o conforto da sua linda mulher estava acima de tudo, até do Benfica, anuiu e foi com ela.
Médico: Um latagão para aí de um metro e oitenta para cima, ainda mais novo que o marido dela, simpatiquíssimo, trato afável, sorriso cativante e extremamente educado.
Ela: Linda a derramar charme, elegantíssima como aliás, foi sempre seu timbre. Blusa branca de tecido finíssimo, com dois botões desapertados deixando parcialmente ver um não menos belíssimo soutien, também ele branco, que ciosamente envelopava aquelas mamas de sonho, mais ou menos pela metade.
Ela, um pouco corada:
     - O que faço, senhor doutor. Tenho de tirar a blusa?
Médico, depois de gaguejar e ainda mais corado do que ela:
   - Não não! Desaperte mais dois botões e sente-se aqui à minha frente. E também não precisa tirar o soutien.
Depois, o incrédulo e estupefacto marido, assistiu ao espectáculo sexy erótico mais incendiário de toda a sua vida.
As mãos do virtuoso médico afagando-lhe os seios, depois detinha-se um pouco e apertava-os com sublime delicadeza, um à vez, os dois em simultâneo, forçava os dedos para ir apalpar por dentro do soutien, trazia novamente as mãos para fora dele e colocava-as por debaixo, e com toda a delicadeza sopesa-lhe as maminhas, elevando-as e deixando-as com toda a suavidade, voltar à posição normal.
E no fim de uma meia hora bem calibrada.
    - Está óptima, não tem nada de mau. Como se sente a senhora?
    - Não me sinto mal.
   - Mas por precaução vou-lhe marcar nova consulta para a semana, porque às vezes há coisas que não se detectam logo à primeira.
    - Está bem.
No carro que os trazia de volta ao hotel, e que ele conduzia vá-se lá saber porquê com pressa exagerada; desabafa ela para o marido, visivelmente mais aliviada.
    - As minhas amigas são umas alarmistas. A encherem-me de medo que me ia apertar as mamas numa prensa, e afinal não custou nada.
Marido não respondeu. Já chegara ao hotel e pegando-lhe pela mão, corria arrastando-a para o quarto.

 

Texto gentilmente cedido pelo caro "Acutilante". 

18.07.20

O Hábito do Confinamento


Vorph "ги́ря" Valknut

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The sovereign of men, say they, "is heaven's son; nobles and statesmen are the sovereign's children; the people are the children of nobles and statesmen.

Edmund Roberts

O Estado, invocando um decreto lei, determinou a interdição, até domingo, das florestas nacionais aos seus cidadãos. Vejo com preocupação e enfado esta mania de proibir, porque os argumentos invocados, tendo sentido, tenderão a criar, com o tempo ou noutros tempos, uma lógica de normalidade a anormais medidas de excepção. Um perigoso hábito da reclusão consentida. 

16.07.20

Astraea


Vorph "ги́ря" Valknut

Os meus olhos são duas feridas,

E a boca, a faca.

Pari-me num pensamento de grito fechado.

Soube da vida por ouvi-la contar.

Pus na esquina um tipo de alegria.

Cheguei, aqui, num fora de nada,

Lavado por tristezas molhadas. 

16.07.20

Mnemosine


Vorph "ги́ря" Valknut

O sentimento religioso depende do sítio onde nos pomos, resultando, este, da escala usada. Se nos compararmos uns com os outros ficaremos cá por baixo. Homens e mulheres, uns melhores, outros piores, medianos nas modas do momento. Contudo, se nos medirmos com as coisas "maiores" do que nós, pondo no "maior" tudo o que há para lá da vontade do poder humano, medir-nos-emos numa escala de gigantes. Desta nova avaliação nascem dois sentimentos. O primeiro, de humildade, pela tomada de consciência da nossa vulnerabilidade. O segundo, de esperança, por sermos capazes de pensarmos o desconhecido, de vermos o não visto. Da capacidade de pensarmos esse todo maior do que nós provém toda a espiritualidade. É esta a nossa natureza. 

15.07.20

Sonhos


Vorph "ги́ря" Valknut

Quantos trabalham, afanosamente, para arranjarem o dinheiro suficiente que lhes permita comprar o indispensável para esquecerem um emprego descartável? 

15.07.20

"A Mamã" (final, 18 anos mais tarde)


Vorph "ги́ря" Valknut

E no riso exuberante do filho querido, a jovem mãe descobre em si mesma um mundo de deleites.

O Luís, rapaz a fazer vinte e seis anos, há dois desmobilizado do exército português, apresta-se a deslocar-se para norte, Uíje, onde um trabalho desejado fora-lhe finalmente concedido.

Sairia para lá no dia seguinte pelo início da manhã, e rapaz prevenido já arrumara a sua mala pelo que, quando a hora chegasse era só pegar nela e abalar.

Pelo fim do dia, início da noite, resolveu ir comprar tabaco a um bar perto de sua casa, cujo proprietário era um estimado conhecido seu, e se porventura encontrasse por lá uns amigos, beber uma cerveja e cavaquear um pouco com eles.

Não encontrou nenhum por isso comprou os cigarros e bebeu a cerveja ao balcão, e quando se preparava para abandonar o local e ir mais cedo para casa, reparou num homem que sentado numa mesa ao fundo da sala, olhava para ele. Aliás, já tinha reparado antes, na noite anterior quando ali se encontrava com os amigos sem que, contudo, lhe atribuísse particular significado, mas hoje fazia-o e desagrava-lhe sentir-se alvo de um escrutínio tão rigoroso. Raciocinou que nada podia fazer, encolheu os ombros e abandonou o local.

Imediatamente o estranho observador se levantou também, saiu e seguiu-o nos seus passos. O rapaz parou, voltou-se e esperou que ele chegasse até si. À brusca paragem do Luís, o homem deteve-se, mas vencida a hesitação inicial, avançou e veio até ele.

Chegou, cumprimentou e perguntou-lhe se se chamava Luís de… que de pequenino habitara em tal lado na Vila Clotilde, e o rapaz confirmou.

Perguntou-lhe então se se recordava de uma senhora sua vizinha, muito bonita e que gostava muito dele, e antes de concluir a pergunta, o rapaz interrompeu-o e exigiu saber a causa do interrogatório.

Apresentou-se então como sendo aquele rapaz, que ele, Luís, uma vez o vira beijá-la.

Uma fúria selvagem espoletou inopinadamente e a sua primeira reacção foi levar-lhe as mãos à garganta e estrangulá-lo até à morte, mas um resto de razão, conteve-o. Algo lhe dizia para ouvir esse homem: e ele disse.

Depois da morte dela ele fora para a África do sul, mas há aproximadamente cinco anos e tendo a vida estabilizada naquela país, voltara a Angola expressamente para matar o assassino.

Descobrira onde morava, e a partir desse momento nunca mais fez uma viagem que ele o não seguisse. Consagrara dois anos a essa missão, até que a oportunidade surgira. Era noite, chovia intensamente e provavelmente devido à intempérie, praticamente não se viam mais camionistas nessa noite. Mas ele seguira viagem e ele, o amante da esposa assassinada, seguira-o também e numa paragem que fizera para se ir aliviar ao mato, saltara-lhe de surpresa para cima, dominara-o e amarrara-o. Colocou-o dentro da cabine do camião, regou essa com gasolina e acendeu um fósforo.

   - Fiquei lá a vê-lo arder, a vê-lo assar enquanto lhe dizia quem era. - Pronunciou numa voz rouca onde o mais profundo ódio se manifestava. - Tudo limpinho. Mais um trabalhinho dos tais atribuídos à UNITA.

Pensou que ele, Luís, gostaria de saber.

   - Sim, gostei! Gostei muito sobretudo por o ter queimado vivo, e ter-lhe dito quem era. - Por que se lhe não apaziguara a amargura que durante todos esses anos carregara quando o amaldiçoara e para ele rogara a fúria do inferno, esta inopinada revelação que ultrapassava as suas maiores expectativas vingadoras, deveria dissipar? - Mas agora não o quero ouvir mais. Siga o seu caminho, senhor, e deixe-me seguir o meu.

   - Pensei que gostasse de saber. - Denotando uma grande surpresa, incrédulo, olhava para ele sem compreender. - Ele morreu! Eu matei-o!

   - Mas estás tu vivo, assassino! - Uns restos de razão sobrepondo-se à sua natureza selvagem que o impelia a matar esse homem! - Estás tu vivo! Se viestes de Portugal para lha roubares e fugires com ela para a África do sul, por que razão, cobarde maldito, protelaste tanto dando-lhe tempo para a assassinar? Foste tu quem a matou, ele só premiu o gatilho.

Sentindo perder o domínio sobre si, virou-se e iniciou a retirada. A voz triste e magoada nas suas costas, pela inflexão dolorosa, fê-lo deter-se.

   - Então não sabe? - Mais do que indagar, parecia desabafar um fardo cuja força não era suficiente para carregar.

   - Não! Que mais devo saber, desgraçado? Virara-se repentinamente e crescia para ele. - Assassinaste-a, assassino! Vê, miserável! Ainda tens nas tuas mãos o sangue dela.

Acabrunhado, quase humilde, numa voz embargada pela comoção, ouviu dele a terrível revelação, há quase vinte anos oculta.

   - Quisemos fugir a tempo, sim. Tantas vezes ela esteve dentro da minha carrinha com a mala pronta a partir, mas desistia sempre no último momento. Dizia que não podia deixar o seu menino, abandonar o seu filho.

Não se recorda bem do que se passou a seguir. Vê-se numa louca correria para casa, desesperadamente procurar por todo o lado as chaves da carrinha, não escutar nem responder a pai e mãe, tomar o volante e acelerar para lá, para o velho cemitério há mais de oito anos abandonado.

Salta da carrinha antes dela se imobilizar completamente e com um salto demencial transpôs os mais de dois metros do muro do cemitério. Corre, corre como um louco, passa pelas campas das duas irmãs e com um mamã que lhe despedaçou a alma, foi cair sobre o mármore da dela onde lá passou toda a noite a chorar e a pedir-lhe perdão.

Rompia a alva quando de lá saiu. Foi a casa buscar a mala e sem tomar banho, sem se barbear nem mudar, sem atender pai nem mãe e sem comer, pegou nela e partiu para o trabalho que o aguardava.

 

Texto gentilmente cedido pelo caro "Acutilante". 

14.07.20

O Declínio e Queda da "Esquerda"


Vorph "ги́ря" Valknut

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Os Partidos marxistas, leninistas, trotskistas, não podem, não devem fazer parte dos Governos, ou coligar-se, oficiosamente, com os Partidos do Poder, sem correrem o risco de trairem os seus Princípios ideológicos. Marx e Lenine sabiam-no. A Democracia Parlamentar é uma construção burguesa, derivada do Capitalismo liberal, regida por interesses corporativos e não pelo "Bem-Comum". Veja-se onde se vão sentar, depois da "política", os líderes de bancada. Veja-se de quem são os órgãos de comunicação social que à manipulação da Opinião Pública dão o nome de Informação. As Instituições económicas-políticas internacionais vigentes são incompatíveis com modelos "marxistas" da Sociedade. Não ver isto é não ver nada. Participar no jogo democrático é perder eleitorado, é trair as bases, os preceitos e preconceitos do ideário de "Esquerda". A Esquerda deve satisfazer-se na oposição. É aí, no protesto, que reside o seu habitat natural.