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B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

B(V)logue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

16.02.20

Sobre a Eutanásia


Vorph "ги́ря" Valknut

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(imagem de doentes "internados" nos corredores do Hospital de Faro) 

Há coisas que se sabem, pensando e outras que se sabem, sentindo. E há ainda outras que, sentidas de uma forma, se pensam de outra. Eu ando, assim.

Saberemos quantas "desistem" por se sentirem atiradas e sem ninguém? Como saber se um doente terminal ao reiterar a sua vontade de morrer, o faz livremente e não preso a uma Depressão? Mas, se assim for, terão os doentes com Depressão Major o "mesmo" Direito à Eutanásia?

A ler :

A Associação Portuguesa dos Cuidados Paliativos classifica como catastrófico o cenário traçado por um estudo que aponta para o aumento de pessoas a morrer sem acesso a cuidados paliativos no futuro, lembrando que Portugal tem “décadas de atraso”.

14.02.20

desafio de escrita dos pássaros #2.3 - Como somas nulas foram todas as minhas adições.


Vorph "ги́ря" Valknut

Engodei o amor com os restos da vida, esgotado o manual para iniciar relacionamentos. Inteirei-me ao avesso, imaginando ouvir no não, consentimento, sentindo no Prelúdio, somente, o frio punhal do Final. A nada dei começo. Vivi viciado no fingimento do real. Por amar demais, muito cedo, no final, nada ficou. Guindado num desamor desorientado, pulsei de uma ninharia para outra, sem jeito nenhum. Se fui feliz, fingindo? Mas que outra coisa há, na vida, senão dissimulação, sendo a consciência a sua mais perfeita fabricação? Iludidos, por ela, fizemos excepcional o ordinário, do sexo ferino, o amor-beato, do interesse egoísta, a glorificada amizade (dos amigos exigimos sacrifício). Espanto, porquê? Reservemos as tredices para o bufão. Como somas nulas foram todas as minhas adições. A paixão teve em mim a densidão de uma ideia aérea. Um ser-amado, um amor rimado, foram-me, meramente, nascedouros de desilusão. Sempre houve mais afectividade simulada do que estima concretizada. Ainda criança, deitei ao Mar das Sensações essas ocas ideias, como balelas de salvação, na toa ilusão de um conhecimento que, pensado profundo, foi sabido à tona, no marejar da corrente inata da ficção (a realidade de hoje é somente um sonho bem lembrado). Que é isto tudo, estas verdades, nestas veredas, senão mentiras acordadas? E depois, há uns instantes, como os de agora, que emprenham o pensar, dando-me à luz num outro, que me dita: "sem darmos fé, dar-nos-emos ao deus a quilómetros de nada."

 

 

 

13.02.20

Filosofem


Vorph "ги́ря" Valknut

I wonder how winter will be
With a spring that I shall never see
I wonder how night will be
With a day that I shall never see
I wonder how life will be
With a light that I shall never see
I wonder how life will be
With a spring that I shall never see
I wonder how winter will be
With a pain that lasts eternally
In every night there's a different black
In every night I wish that I was back
To the time when I rode
Through the forests of old
In every winter there's a different cold
In every winter I feel so old
So very old as the night
So very old as the dreadful cold
I wonder how life will be
With a death that I shall never see
I wonder why life must be
A life that lasts eternally
I wonder how life will be
With a death that I shall never see
I wonder why life must be
A life that lasts eternally

12.02.20

...


Vorph "ги́ря" Valknut

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Maia, 2020, Fundação Gramaxo.

 

"Árvore verde,

 

Meu pensamento

 

Em ti se perde.

 

Ver é dormir

 

Neste momento.

 

Que bom não ser

 

estando acordado!

 

Também em mim

 

Enverdecer

 

Em folhas dado!

 

Tremulamente

 

Sentir no corpo

 

Brisa na alma!

 

Não ser quem sente,

 

Mas tem a calma...

 

Eu tinha um sonho

 

Que me encantava.

 

Se a manhã vinha,

 

Como eu a odiava!

 

Volvia a noite,

 

E o sonho a mim.

 

Era o meu lar,

 

Minha alma afim.

 

Depois perdi-o.

 

Lembro? Quem dera!

 

Se eu nunca soube

 

O que ele era".

 

03-08-1930

Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 140.

07.02.20

desafio de escrita dos pássaros #2.2. O meu segredo, mais secreto, é saber limpar os pensares dos grandes pesares a um raciocínio de dupla folha higiénica.


Vorph "ги́ря" Valknut

A uns vinte minutinhos pr'ó café emborco o primeiro comprimido de bem-estar, limpo-me a pestana e como um Pisco, pico o dia. Se o sinto encoberto e sem remédio engulo o outro tónico da receita. Banho-me, de telefonia aberta, na imersão das desgraças a mim fechadas e no ralo jogo a guerra, a seca, meca, a epidemia ou outra vilania. Enxotado, desço ao roupeiro e meto-me no fato da verdade. A realidade, exigindo-me certas maneiras, afivela-me num (sem)riso, dando-me perna à cabeça. Ser plácido e anormal, ora aqui está um sinal de boa criação. Chegado aonde me puseram, dou corda ao relógio, mas o tempo estreita e não desenlaça, faltando, sempre, uma última de mão. Há dias, assim, que se vão indo, em meias tintas, em sois pinados, em espécies de búzios deitados, havendo, outros, assados ou fumados por certos elementos mentais, lavados em viagens limpas e descerebrais. É que isso de médicos, nunca fiando...e verdade seja dita, maroscas que me dessem, ao duvidar, as harmonias do acabar, nunca tive! Haverá doido maior do que aquele que pára num agir desmotivado?

O meu segredo, mais secreto, é saber limpar os pensares dos grandes pesares a um raciocínio de dupla folha higiénica. 

06.02.20

Ena pá 2000, És Cruel.


Vorph "ги́ря" Valknut

És cruel

Meteste a tua filha num bordel

Enforcaste o teu caniche a um cordel

És cruel

És tarado

Pintaste o sexo cor de rebuçado

No circo tu serias um achado

És tarado

És um porco imundo,

Quando queres vais até ao fundo

Não sei onde vais parar

És ignóbil

Não sei qual é que é o teu móbil

És um reciclado de Chernobil

És ignóbil

És vaidoso

Meteste uma pompom na tua franja

Sabes que ainda o dia é uma criança

És vaidoso

És um porco imundo

Quando queres vais até ao fundo

Não sei onde vais parar

És obtuso

Lavas a tua tromba com água do Luso

O teu nariz é como um parafuso

És tarado

És obsceno

Os teus olhos diz que ele é um veneno

Encharcas-te com vinho do Reno

És cruel

És um porco imundo

Quando queres vais até ao fundo

Não sei onde vais parar

És um porco imundo

Quando queres vais até ao fundo

Não sei onde vais parar

Não sei onde vais parar

05.02.20

Comandante Guélas


Vorph "ги́ря" Valknut

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Recomendo, pela originalidade, o magistério magistral do Comandante.

O Comandante Guélas, Querido Líder de Paço de Arcos, reconhecia sempre os comunas pelos pés, porque pisavam a vila de outra maneira. O Bill jogava um futebol diferente do dos amigos. O Serapito e o Kid Aromas, sempre perfumado e com verniz nas unhas, eram dos últimos homens temperados de Paço de Arcos, cuja única tarefa que tinham na vila, em comum com o Milhas, era a verdade de si mesmos, por isso um dia o Querido Líder declarou-os, ao acordar com uma ressaca de remédios, Patrimónios Imateriais de Paço de Arcos! O Ánhuca vivia na mais absoluta escuridão, por isso as amizades íntimas que fez foi com as galinhas do Manelinho do Estrume, que cobria tudo o que mexia em casa, incluindo a filha, pois a mulher tinha-se pirado com um chui. O nascimento do Zé Luís era um mistério, assim como a sua morte. Diziam que era tetraneto do Napoleão Bonaparte.
- A violência não lesolve nada, - gritou o patrão chinês do Alfredo do Pombalino quando viu o Generebete a apertar com violência o pescoço do Espalha.
- Aposto que não dizias isso se descobrisses que a tua mulher andava a mudar o óleo a outro.
O cornudo metera na cabeça que o futuro sobrinho do Isaltino andava a servir-se da sua Becas, que cheirava mal dos pés. O sonho de dar a volta à vila num Lotus 7 esfumara-se de um dia para o outro e levara-o a dedicar-se a uma valente libação vínica.
- Bebe um copo de água branca que a dor de corno passa, - aconselhou o empregado do asiático, ajeitando a popa. – Ou um café preto!
Não muito longe dali o Pipi acusava a mãe do Pingalim de lhe ter vendido um garrafão de tinto marado, com sumo de uva, óleo das motas do Cabrita e sobras dos pés da Maria das Bicicletas, que lhe tinham toldado o espírito que o tinha feito chocar com um elétrico em frente à padaria.
- Elétrico? Era um compressor! – Explicou o Guélas.
Foi o suficiente para o Pipi confundir o Querido Líder com uma mini, e tentar tirar-lhe a carica. Para a História a cena ficou registada como o Atentado de Camarate que quase ia vitimando o Comandante, e cuja culpa fora atribuída àquele que ainda não aceitara a nova ordem: o Bill. Na esquina do Manel da Leitaria o Capitão Porão estava em rituais de transição com um adolescente:
- Passa para cá as chaves do ninho, - exigiu o jovem chinês. – Hoje tenho uma cabrita ao serão e só regressas a tua casa quando eu puser um lençol na janela.
- Não te esqueças de tirar a deusa Minerva da cabeceira da cama, não vá ela cair novamente na cabeça da cabo Verdiana.
Mas a estória do momento era o casamento do Peidão, que levantava um problema logístico grave, não havia lugar para toda a elite da vila na mesa do almoço. O Querido Líder fez uma fatwa que correu com as madames de cabelo à “Moisés”, fatos a cheirar a naftalina foram banidos, assim como as pérolas de plástico, cachuchos de roscas e prendas miseráveis, as criancinhas penduras não faltavam ao infantário, e às tias da aldeia prometia-se enviar os restos em “tupperweares”. A festa assim rejuvenescia e com toda a certeza que seria muito mais original. Mas nunca ninguém imaginou o quanto original ela iria ser, nem o próprio Hitchock! A autorização para mais uns quantos foi dada na véspera e o Peidão convidou todos e mais alguns, prometendo arranjar lugares disponíveis. Até o Bigornas trouxe um coirão que ninguém conhecia, mas que ele insistia ser a namorada de há muito, esquecendo-se de que na vila só havia registo da eterna Kika, uma alemã que só se lembrava do namorado quando precisava de alguém para lhe levar a bilha de gás da porta de entrada para a cozinha, nas traseiras, cruzando-se sempre com o Camaleão, irmão do Estalinho, que acampara à porta da Lentes, dentro do “Mustang” do pai, que dizia com orgulho ser pai de “quatro matulões”, esquecendo-se que o filho Trovão tinha um metro e meio. Os convites de última hora foram feitos como os primeiros, de boca em boca e à porta do Pica, porque para os noivos poupar nas mariquices dos convites significava mais lugares à mesa para os amigos. Mas mesmo assim ficaram muitos esquecidos e alguns traumatizados. A boda teve lugar na Quinta da Granja em Sintra, e para o Orlando, o comandante, este era o dia mais feliz da sua vida, pois talvez estivesse aqui a grande oportunidade para progredir na carreira: dar todo o conforto ao filho do chefe! Na véspera do grande acontecimento paçoarcoense fez uma visita guiada às instalações, incluindo a ala mais in do palácio, os aposentos “reais” datados do século XVII, recentemente restaurados, e colocados de imediato à disposição dos noivos, para que os inaugurassem a seguir à boda. Até a retrete, onde muitos nobres tinham arriado faustosos cagalhões, se encontrava recauchutada e selada para os fundilhos do Peidão. Mas ao noivo, que não ligava muito a estas mariquices da História, o que lhe chamou à atenção foi o corredor dos aposentos dos oficiais, paredes meias, que estava forradinho de extintores , um por cada porta.
- Se vêm aqui, o Orlando manteigueiro será despromovido e passa a ser o Cabo Pilas , - pensou. – Vamos ficar longe destas tentações!
Como já era de prever a chegada do noivo foi acompanhada de um coro, de “Peidão” e muitos “Peidão”, que se estenderam à cerimónia na igreja, felizmente dirigida por um paçoarcoense padre que teve o bom-senso de acelerar o ritmo.
- Se queres falar com o meu irmão, até às 20 horas está no convento e depois passa directamente para o bordel, - dissera aos noivos um mês antes o adolescente Sarapito quando estes escolheram o seu mano para lhes abençoar a vida de pecado.
E os gritos foram tantos que os meninos de boas famílias de Paço de Arcos ficaram com as goelas secas, vendo-se obrigados a porem-nas de molho mal tiveram oportunidade. O avô do noivo, pioneiro da aviação, juntou-se à festa e levou um amigo que conhecera, o engenheiro com cara de leitão. Nunca mais ninguém os parou! E foi nesta altura que um oficial da base foi encurralado na casa de banho, pois resolveu ir arrear o cagalhão minutos antes de um lote de meninos ir verter também as suas. Quando descobriram por baixo da abertura da porta do cagatório os seus sapatos e as calças em baixo, aproximaram-se. O Graise bufou-se durante meia hora e no intervalo entre cada petardo o Velhinho batia na porta e gritava:
- Então, então, estão aqui crianças!
O de lá nem tossiu nem mugiu, e assim ficou até que os copos dos meninos ficaram vazios e tiveram de ser recarregados. No andar de baixo a festa ia rija, o Pilas cavalgava pelos vastos corredores do palácio, enquanto que os noivos apanhavam a seca do costume, fotos e mais fotos com aves raras pelo meio. O fotógrafo era o irmão do Bigornas, e como o noivo não lhe prometera nada, excepto um almoço à conta dos sogros, simulou fotografias que nunca chegaram a aparecer. No final aconteceu aquilo que o Peidão temia!
O Vaca Prenhe, cunhado do noivo depois de ter presenteado a Dona Ludres com um netinho fora de tempo, o Cabeça de Ananás, resolveu praxar o Peidão nos aposentos reais. Um minuto depois de entrarem entrou também a boca dum extintor, comandado pelo Graise, e encheu o espaço de um nevoeiro serrado, que obrigou metade do gang a refugiar-se no wc selado. E selado ficou, porque aproveitaram a confusão para verter águas para onde estavam virados. Do quarto saia fumo branco, não porque houvesse Papa, mas sim porque todos os extintores estavam agora vazios. O Orlando não podia actuar, e por isso teve de ir o chefe que colocou todos os “meninos de boas-famílias” no exterior para minimizar os estragos. E naquela zona havia uma grande piscina atestadinha de água cristalina, que foi para onde se dirigiu a rapaziada para se refrescar. Um minuto depois já havia jovens em cuecas a voar da prancha, incluindo a mulher do Peidão que foi atirada de vestido de noiva. O ponto alto desta banhada colectiva foi quando o Pilas baixou as cuecas e ofereceu a fruta a uma velha que espreitava escandalizada num canto do edifício:
- O que tu queres está murcho, - gritou o adolescente que, para constituir família, teve de ir viver em reclusão para o Porto.