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Blogue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

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Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

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Lembro-me de um homem singular, pela maneira como pensava e vivia. Talvez, que sobre si não pensasse em demasia e aí estivesse a sua sabedoria. Chamava-se Baltazar, como o Mago. De trinta e muitos, baixo, de cores rosadas, de sorriso perene numa forma redonda. Pintor e carpinteiro, mas capaz de fazer, bem ou mal, um sem número de outras coisas, vivia, ou melhor dormia, com o derrotado pai, numa casa cabida numa cama. Mas bastava-lhes. Como vos ia dizendo, nunca conheci homem igual. E se calhar, não só eu, catraio na altura, mas também os outros, maiores, que com ele tiveram trato. Bom profissional, mas nada pontual, tornava-se às vezes missão bizarra encontrá-lo porque, após concluído um trabalho e tendo amealhado algum dinheiro, tinha como vocação evanescer. Fascinava-me, dito personagem, pela liberdade, pela desatenção que punha no viver, como se possuidor de uma sabedoria adiantada, ignorada dos demais. Teria eu, o quê? Catorze anos?! Já não me recordo bem. Recordo-me, contudo, de um dia, à tardinha, após ter concluído um trabalho na casa dos meus pais, o ter acompanhado de bicicleta no seu caminho de regresso a casa. Havia ainda uma luz crepuscular acidental. Presumo que estaríamos no Outono. Ou seria Inverno? Eu contornava-o de bicicleta, para melhor ouvir o que me ia dizendo. Ele empurrando um carrinho de mão onde deitava o pouco que trazia. Dizia-me, o Sr. Baltazar, que durante o fim de semana iria "cortar" um carro pela metade, aproveitando-lhe a parte de cima para fazer um barco (não entendi como diabos ele conseguiria de um carro, fazer um barco). Depois pôr-se-ia a caminho de um grande lago, não levando, mais nada, senão uma cana de pesca, um cobertor, e o dito barco de chapa. Ia ler as estrelas, viver nas margens. Perguntou-me se já tinha visto o céu, no breu. Eu sabia lá disso, vivia na cidade, sendo que os sítios que melhor conhecia eram deste e não doutro mundo. Aliás o meu mundo era do tamanho de um quarto, não de lua, mas de dormir. Ele ria-se. Mas era isso que fascinava. A felicidade advinda das coisas que mais ninguém dava conta (teria ele mais anos do que idade?). Encantava-me não só a mim, imberbe, mas também os graúdos que durante meses perguntavam pelo "Baltazar", querendo dele trabalho (não serão todos os sábios, loucos carismáticos?), ou se calhar, quem sabe, só vê-lo.
Talvez, bem lá no fundo, todos soubéssemos estar ele por margem certa e o resto à deriva. Era isso sim, livre, tendo no tempo, companhia e pondo na mochila uma vida que o enchia.

 

Abraço, Mago Pescador


 

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