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Blogue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

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O Sono é Nosso

 

De Rui Catalão

 

"Tão preguiçoso quanto as suas personagens, Albert Cossery faz a apologia da mandriice. Para ele, o pecado nasce com o trabalho. E a ambição do poder vem por arrastamento.
Um grande defeito ensombra a obra de Albert Cossery, cujos títulos "Mandriões no Vale Fértil" e "A Violência e o Escárnio" foram editados pela Antígona. Desgraçadamente, nem os seus romances podem ser lidos a dormir. É um contratempo de alto lá com ele, se tivermos em conta que, em 60 anos de carreira, este escritor egípcio de língua francesa apenas publicou oito livros, sem que outra tarefa laboral ocupasse o seu tempo. E, mesmo assim, recusa-se a corrigir as provas, com medo das alterações que o obriguem a redobrada trabalheira.Passe o contratempo, o trabalho romanesco de Cossery lê-se com o deleite de uma tarde ociosa, na doce fantasia de que o inferno é trabalhar e, a ter de existir, os outros que o façam. Até porque, como sugeriu Raoul Vaneigem, "o trabalho foi aquilo que o homem achou de melhor para nada fazer da sua vida."Na casa da família de Serag, onde se centra a narrativa de "Mandriões no Vale Fértil", trabalhar é uma ambição quimérica, sinal de revolta que pode dar mesmo em perseguição do governo. Como diz o velho Hafez, em resposta aos sonhos do filho mais novo, acometido por uma obsessão que o faz sonhar arranjar emprego: "Lembro-te que nasceste no seio de uma família digna, peço-te portanto que não manches a nossa reputação."Portanto, não se está perante um regresso à personagem de Oblomov, esse "magnífico preguiçoso" criado pela literatura russa no século XIX. Gontcharov, o seu autor, debruçava-se sobre a tipologia de uma certa nobreza decadente, a que não faltavam ambições e grandes ideias. O problema era pô-las em acção. Antes que a força de vontade regressasse ao corpo de Oblomov, vinha o pôr-do-sol anunciar-lhe que já era tarde demais. Mas, no caso das personagens queridas de Cossery, estas não deixam que a vida lhes passe à frente. Limitam-se a gozar cada momento, com a bonomia de quem não mexe uma palha com medo de pôr em causa o precário equilíbrio do mundo. E assim, o explendor da vida airada concentra-se nas esplanadas dos cafés e em prostíbulos de bairros degradados onde a praga do progresso ainda não se fez sentir. Como confessa Rafik a uma ex-amante, a prostituta Imetissal: "Eu tenho medo dos homens. São todos criminosos como tu, que só pensam pôr os outros a trabalhar."Editado pela primeira vez em 1947, "Mandriões no Vale Fértil" pede de empréstimo ao género burlesco o desinteresse pelos acasos do mundo, que tantas situações de humor provoca, para narrar a história da própria família de Cossery. Nascido em 1913 no Cairo, filho de cristãos coptas endinheirados e herdeiros de propriedades - o que os livrava das agruras da responsabilidade - sobre eles disse Cossery: "Na casa do meu pai, o único trabalho necessário dava-se à noite, quando se preparavam as refeições."Educado pelos irmãos desde muito novo a ler Dostoievski e os clássicos franceses, não custa imaginar na personagem de Serag o jovem Cossery, obcecado pela ideia de fugir de casa e iniciar uma vida normal, longe do pai que padece de uma gigantesca hérnia (que trata com a bonomia de uma gravidez), Rafik (cuja única ocupação é impedir que o pai se case) e Galal, o filho mais velho, transparente de tanto dormir, chegando ao ponto de pedir ao tio que lhe leve um bacio à cama para não ter de se levantar. Ou seja, para os seus irmãos, a vontade de Serag querer trabalhar não passa de uma ridícula presunção literária.Tendo em conta este espantoso cenário de casa de belos adormecidos, a decisão de Serag ir trabalhar causa um terramoto no seio familiar. A paz é dali varrida. Porque de boas intenções está o inferno cheio e o paraíso é a terra que temos, desde que ninguém se atreva a transformá-la. Assim, dormir é também velar pelo repouso do mundo, evitando mais complicações.Outro extraordinário sentimento, entre estas personagens de vida regalada, é a condescendência pela loucura alheia. E assim é compreensível que o dono de um café se desdobre esquizofrenicamente em duas identidades diferentes, falando com a voz e as atitudes do irmão que morreu só para não afligir a sua mãe enlouquecida. Menos subtil é Mustafá, ao arranjar uma zanga com o irmão após avistar um milhafre num passeio ao campo. Hafez teima que é uma cabra, e fica na sua, mesmo depois de a ver a voar: "Era uma cabra, mesmo que tenha levantado voo." A loucura mal nenhum põe neste mundo e os vagabundos muito menos. Com o final da II Guerra, Cossery mudou-se para Paris mas nunca a sua obra perdeu de vista o bairro indígena do Cairo, com os seus mendigos arrogantes e cheios de espírito, sempre prontos a ridicularizar as ambições de poder das classes mais altas. Na sua inércia e completa ausência de bens ou de interesses, Cossery encontra neles os verdadeiros reis do mundo e compara a actividade literária à de ser mendigo: "Mais não fazem do que apontar para o verdadeiro mundo. E a verdade é que escrevo para as gerações mais jovens, porque são elas que ainda têm tempo de mudar. Desejo salvar as almas jovens. Depois de ler os meus livros, o leitor nunca mais deveria regressar ao seu emprego e aceitar o tédio de um caminho já traçado." Nesta linha de continuidade, "A Violência e o Escárnio" poderia ser um manifesto político. Perante a violência exercida pelos poderes instituídos, há que rir. Logo, toda e qualquer medida levada a cabo pelos governos nunca deve ser encarada a sério. E assim, um grupo de folgazões dedica-se a tecer loas e a escrever panegíricos ao governador da cidade onde a história se passa, fazendo-o com tanta ênfase e despropósito que o governador acaba por ser desacreditado. O problema surge com os revolucionários - numa clara alusão de Cossery aos fundamentalismos, sejam políticos ou religiosos. O discurso de contra-poder afina pelo mesmo diapasão do poder, e o combate só resulta em horror e violência gratuita. Ao sacrificar homens, mesmo que estes tenham sido carrascos, a revolução apenas cria mártires, "perpetuando assim a eterna impostura". Prova disso é quando um delegado de polícia fica desencantado por interrogar um revocionário arrependido. É nessa dicotomia de forças que o discurso do poder se mantém e dinamiza.Na visão de Cossery, a luta não existe como fundamento, é o resultado de criaturas destroçadas e carentes, procurando desesperadamente uma compensação que nunca as satisfaz. Toda a lógica de poder, dinheiro ou carreira, baseia-se assim numa doença colectiva, que afasta as pessoas de si próprias e as deixa esvaziadas, sem consolo. Os mendigos, sem nada de material a que se possam agarrar, encarnam a pura beatitude: tudo o que os alegra e faz sofrer é verdadeiro e absoluto. Ao pôr um polícia a invectivar e a pontapear um mendigo, só porque este dormia na esquina de um prédio opulento, onde havia uma joalharia e um banco, em "A Violência e o Escárnio", Cossery revela até que ponto a humanidade foi substituída por símbolos, ao ponto de só estes existirem. É que, na realidade, não é um mendigo, o que ele pontapeia, mas apenas um boneco lá colocado por um sátiro, já antecipando a violenta estupidez igualmente simbolizada pelos representantes da lei.Quando em "Mendigos e Altivos" (ed. Antígona) surge um polícia à beira de um esgotamento, por não entender a indiferença a que os mendigos votam o seu poder, mesmo quando está em condições de os agredir e até matar, está já a tomar consciência da ineficácia do seu trabalho, que apenas consiste em preservar um sistema doente, que jamais necessitaria dele se fosse saudável. Essa repressão que o seu trabalho representa revela a sua natureza reprimida, até porque é homossexual, sendo portanto à luz da sociedade tão criminoso como aqueles que persegue.Nesta abundância de símbolos que revelam a erosão da humanidade na sua própria casa, os burros imperam. Se, no já citado "Mendigos e Altivos", a população de uma zona rural elege para presidente da localidade um burro de quatro patas - quando a ideia de facto é eleger um burro, mas de duas -, em "A Violência e o Escárnio" um barbeiro deixa passar à frente dos restantes clientes um burrico que precisa de ser tosquiado, sob pretexto de que é um trabalhador! Perante a indignação do cliente passado para trás por um burro, o dono do animal também se ofende: "Quem julgas tu que és para vires para aqui insultar um trabalhador?"O universo romanesco de Cossery não é muito distante do de Kafka. Mas, ao contrário das personagens do autor de Praga, devoradas por um sistema que não compreendem, os protagonistas de Cossery ignoram a influência do poder e levam uma vida à sua maneira, sublinhando a grotesca inutilidade de tudo o que se sobrepõe ao indivíduo. Como resultado, todo o homem livre é um herói, mesmo que arrisque tornar-se uma vítima. E se a tentativa de adaptação das personagens "kafkianas" as leva ao desespero, a indiferença dos rebeldes "cosserianos" permite-lhes gozar uma desplicente alegria."

 

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Arthur: Which is the greatest quality of knighthood? Courage? Compassion? Loyalty? Humility? What do you say, Merlin?
Merlin: Hmm? Ah. Ah. Ah, the greatest. Uh, well, they blend, like the metals we mix to make a good sword.
Arthur: No poetry. Just a straight answer. Which is it?
Merlin: All right, then. Truth. That's it. Yes. It must be truth above all. When a man lies, he murders some god of the world. You should know that.

 

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Nas línguas latinas a palavra, trabalho (trabajo - es, travail - fr, lavoro - it) tem uma origem etimológica certa. Em português, espanhol e francês ela deriva do vocábulo latino "tripalium" que era, nada mais, nada menos, que um instrumento de tortura formado por três paus que serviam para estripar os torturados.

No alemão, a palavra Arbeit, vem diretamente das palavras servidão ou escravidão.
Por outro lado no inglês,  Labor, tem origem no latim, laborem, que carrega um sentido mais pesado de esforço, dor e fadiga.


Como podemos ver os povos latinos e germânicos associavam o trabalho a uma verdadeira tortura, a uma obrigação imposta,  pelos aristocratas, aos escravos/servos. 

 

 

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