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Blogue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

Blogue de Alterne

Gosto de, sob o Facho, usar a Foice mas, tenho, no Martelo, o meu maior prazer.

...

"Ouves os filhos da noite? Como são belas as músicas que eles cantam"

 

Lúcido na prata noite,

À folhagem dito o pensamento.

E na cesura da folha caduca, ouço-lhe o poema.

Tremendo num ranger secreto,

Foçado em escrita mental

Atiço-me na imorredoura geada.

...

Versos:

a) Antero de Quental (Tentanda Via)

 b) J. M. Branco (A Noite)

  c) J. M. Branco (Cantiga do Leite)

 

a) Com que passo tremente se caminha

Em busca dos destinos encobertos!

Como se estão volvendo olhos incertos!

Como esta geração marcha sozinha!

 

Fechado, em volta, o céu! o mar, escuro!

A noite, longa! o dia, duvidoso!

Vai o giro dos céus bem vagaroso...

Vem longe ainda a praia do futuro...

 

b)

Em tudo que já fomos está o que seremos

No fundo desta noite tocam-se os extremos

E se soubermos ver nos sonhos o processo

Os passos para trás não são um retrocesso

 

A noite é um sinal de tudo quanto fomos

Dos medos, dos mistérios, das fadas e dos gnomos

Da ignorância pura e da ciência irmã

Em que, sendo passado, já somos amanhã

 

A noite é o espaço vago, o tempo sem história

Em que as perguntas nascem dentro da memória

Em tudo que já fomos está o que seremos

Mas cabe perguntar: Foi isto que quisemos?

 

Em tudo que já fomos está o que deixamos

No ventre das marés, nos portos que tocamos

O rumo desvendado, o preço da bagagem

É tudo quanto resta para seguir viagem

 

A noite é parideira da contradição

Que existe em cada sim que nos parece não

Olhando para nós, os grandes dissidentes

No meio da luta entre lemes e correntes

 

Será esta viagem feita pelo vento

Será feita por nós, amor e pensamento

O sonho é sempre sonho se nos enganamos

Mas cabe perguntar: Como é que aqui chegamos? 

 

a)

Vem longe ainda a praia do futuro...

 

É a luta sem glória! é ser vencido

Por uma oculta, súbita fraqueza!

Um desalento, uma íntima trisreza

Que à morte leva... sem se ter vivido!

 

A estrada da vida anda alastrada

De folhas secas e mirradas flores...

Eu não vejo que os céus sejam maiores,

Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada!

 

b)

Em tudo que já fomos estão os nossos mortos

E os vivos que ficaram entram nos seus corpos

Na noite do amor, na noite do sinal

Naufrágio de fantasmas na pia baptismal

 

A noite é o impreciso e escuro purgatório

Que alinha as nossas almas no seu dormitório

A culpa dos heróis é serem sempre poucos

Acaso somos mais? ou tão-somente loucos?

 

Temos que descasar a culpa e o prazer

Naquilo que fizemos ou deixamos de fazer

Para reconstruir os corações cativos

Mas cabe perguntar:

 

c)

Mama, meu menino, o leite é como um rio

 

b)

Acaso estamos vivos?

 

a)

Eu não vejo que os céus sejam maiores!

 

Irmãos! Irmãos! amemo-nos! é a hora...

É de noite que os tristes se procuram,

E paz e união entre si juram...

Irmãos! Irmãos! amemo-nos agora!

 

Vós que ledes na noite... vós, profetas...

Que sois os loucos... porque andais na frente...

Que sabeis o segredo da fremente

Palavra que dá fé - ó vós, poetas!

 

b)

Em tudo que já fomos há um sonho antigo

Conversa universal de cada um consigo

São sombras e brinquedos, tudo misturado

E o vago sentimento de nascer culpado

 

c)

Mama, meu menino, o leite é como um rio

 

b)

Será um sonho absurdo este olhar para dentro

E o nosso destino, só, servir de exemplo

Andamos a fugir à frente desta vida

Mas cabe perguntar: Existe uma saída?

 

a)

Irmãos! Irmãos! amemo-nos agora!

É de noite que os tristes se procuram!

 

Sim! que é preciso caminhar avante!

Andar! passar por cima dos soluços!

Como quem numa mina vai de bruços,

Olhar apenas uma luz distante!

 

Irmãos! Irmãos! amemo-nos agora!

É de noite que os tristes se procuram!

 

Heis-de então ver, ao descerrar do escuro,

Bem como o cumprimento de um agouro,

Abrir-se, como grandes portas de ouro,

As imensas auroras do futuro!

 

c)

Mama, meu menino, o leite é como um rio

Que nunca pára de correr

O leite branco

É o remédio santo

Com que tu vais crescer

 

Entre as duas margens quentes e fecundas

Mama, meu menino, sem parar

Rio sem fundo

Que corre devagar

 

Mama o leite, meu passarinho,

Mata a sede sem temor

Este rio é o teu caminho

O cordão do meu amor

 

Mama, meu menino, mais um poucochinho

Que eu páro o tempo só p'ra ti

Seiva de vida

Com que fui enchida

Quando te concebi

 

Um pequeno esforço, mete-te ao caminho

Duas colinas mais além

Asas de estrume

P'ra te dar o lume

Oh meu supremo bem

 

Mama o leite, meu passarinho,

Mata a sede sem temor

Este rio é o teu caminho

O cordão do meu amor

 

a)

Irmãos! Irmãos! amemo-nos agora!

É de noite que os tristes se procuram!

 

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